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Fernando Calado Rodrigues

Criticar o Papa?

Livieres defendeu o seguimento das determinações do Papa, mas agora, porque lhe tocam, critica-as.

Fernando Calado Rodrigues 3 de Outubro de 2014 às 00:30

O bispo paraguaio Livieres Plano reagiu violentamente à remoção que lhe foi imposta pela Santa Sé através de uma carta enviada ao Prefeito da Congregação dos Bispos, o cardeal Marc Ouellet. Chega mesmo a considerar que o afastamento da diocese de Ciudad del Este é uma decisão "infundada e arbitrária e sobre a qual o Papa terá que prestar contas a Deus".

Foi noticiado que o principal motivo a ditar a remoção do bispo foi o encobrimento e a defesa de um sacerdote acusado de pedofilia nos Estados Unidos. São várias, contudo, as razões que levaram o Vaticano a investigar aquela diocese e o seu bispo. "Livieres não foi removido por questões de pedofilia", disse o porta-voz do Vaticano, padre Federico Lombardi, ao Catholic News Service. "Esse não foi o problema principal", sublinhou, e esclareceu que na base desta "grave decisão" estiveram "problemas sérios na administração da diocese, na formação do clero e nas relações com os outros bispos". A relação de Livieres com os outros bispos foi sempre tensa. Agudizou-se quando retirou os seus seminaristas do único seminário do Paraguai, por considerar que a formação ali ministrada era "deficiente" e muito influenciada pela Teologia da Libertação. Criou um seminário próprio, com uma orientação mais tradicionalista e com apenas quatro anos de estudo, em vez dos seis que a Santa Sé recomenda. Recentemente, envolveu-se numa polémica com um outro bispo do seu país, que chegou a apelidar de homossexual.

Foi este ambiente de crispação que ditou a sua remoção e, depois, o ataque que o próprio fez à decisão do Papa. Uma reação que é surpreendente para quem criticou o bispo Fernando Lugo quando este se candidatou à presidência do Paraguai, por não acatar as ordens de João Paulo II. Liviers não é o único que no passado defendeu um seguimento incondicional das determinações do Papa mas que agora, quando lhe toca a ele e não lhe agradam, já se sente à vontade para as criticar e até pôr em causa.

Apesar de alguns setores sustentarem a obediência cega às resoluções do Papa, talvez seja mais sensato admitir que até as decisões papais são passíveis de ser discutidas. O que não se pode é pôr em causa a unidade em torno do essencial da fé. 

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