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Fernando Calado Rodrigues

Padre António Vieira

Foi um universalista que lutou contra a opressão. As suas palavras continuam, infelizmente, atuais.

Fernando Calado Rodrigues 5 de Dezembro de 2014 às 00:30

O padre António Vieira é um expoente da língua portuguesa do qual, várias vezes, se tentou reunir toda a vasta obra. Esta, finalmente, está disponível, cumprindo-se assim o objetivo primeiro da equipa internacional de 52 peritos liderada por José Eduardo Franco e Pedro Calafate. "Esta coleção destina-se ao grande público", dizia José Eduardo Franco, quando se começou a publicar a obra de Vieira em abril do ano passado. "O nosso maior objetivo é democratizar o Padre António Vieira, cujos textos devem poder chegar a toda a gente."

São trinta volumes, quinze mil páginas em que podemos contactar de novo com o pensamento e o vigor da linguagem do sacerdote, do missionário, do pregador régio, do diplomata e, sobretudo, o defensor dos oprimidos. O "padre António Vieira era um universalista que, além de nos ensinar a tolerância e a inclusão, lutou contra a segregação e a opressão", sublinhou José Eduardo Franco na apresentação da obra.

Denunciou as injustiças do seu tempo, lutando contra a abolição da escravatura sem se acobardar diante dos poderosos que enriqueciam à sua custa. Atreveu-se mesmo a afrontar a Inquisição, acusando-a de sufocar o país pelo medo – e só escapou às suas garras graças à proteção de D. João IV. Após o falecimento do rei, valeu-lhe o Papa, de quem conseguiu a anulação da sentença da Inquisição que o tinha condenado em 1967 e lhe concedeu a imunidade perante qualquer tribunal, ficando apenas dependente do Tribunal Romano.

Apesar de muitas das iniquidades denunciadas pelo padre António Vieira se terem entretanto mitigado, as suas palavras continuam, infelizmente, atuais. Ontem como hoje, o peixe graúdo continua a alimentar-se do miúdo, com a complacência e insensibilidade da generalidade das pessoas. Os príncipes, "em vez de guardarem os povos como pastores", continuam a roubá-los "como lobos", mantendo-se atualíssimas as palavras do Sermão do Bom Ladrão, proferido em 1655 na Igreja da Misericórdia, em Lisboa.

Quase quatrocentos anos depois, é um outro jesuíta que nos nossos dias ergue a sua voz para defender os oprimidos e explorados do nosso tempo: o Papa Francisco. Ambos são vozes incómodas que muitos tentam silenciar. Mas a sua obra permanecerá. 

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