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J. Rentes de Carvalho

O mundo dos três vinténs

A mãe, preocupada, veio perguntar que faria eu com uma filha assim.

J. Rentes de Carvalho 24 de Setembro de 2017 às 00:30

Médica, trinta anos, solteira, despachada, bonita de cara, bem feita de corpo. Foi a melhor do curso, teve uns namoricos, mas como ia à missa e se dedicava a obras de caridade, voltou de Coimbra com fama de virtuosa. Órfã de pai. Vive com a mãe que, na sua inocência, a supõe virgem.

Funcionário da EDP, quarentão, divorciado, galaroz. Advogado, também quarentão, também divorciado, idem galaroz. Taxista, idade incerta, solteiro, esteve no Luxemburgo e "viu muito mundo", frase que usa quando discordam do que conta. Padre, na paróquia há três anos, entusiasta de Led Zeppelin, tem paixão pelo Alfa Romeo que os pais lhe ofereceram quando se ordenou.

Estes são os personagens. A história passa--se numa vila, o começo deu-se quando a médica e o funcionário calhou irem à mesma hora nadar na piscina municipal. Mantinham relação amigável, mas sem intimidade, e nessa tarde, depois de um aceno, saltaram para a água. Nadaram. O cansaço levou-os a repousar ao mesmo tempo. Sentados no rebordo, os pés a remexer a água, falaram que era capaz de vir chuva, e ele, num despropósito, confessou que nadava mal, tinha ideia de deixar a natação. Respondeu ela que seria pena a falta de exercício, pensasse na saúde, que se quisesse o poderia ensinar. Ele agradeceu e foram tomar café.

Dali a dias juntou-se-lhes o taxista, também ele a precisar de lições. De seguida veio o advogado, sofrível na natação, mas com vontade de melhorar. O padre foi o último, disse que só vinha pela companhia. Braçadas de campeão, pulmões de cachalote, uma tarde convidou a mestra para uma volta no Alfa Romeo. Longa volta, muita conversa, muito riso.

O advogado é mais de jantares em sítios de boa mesa, e quer levá-la mais vezes a Espanha, mas ela diz que é melhor esperarem pelo Verão. O funcionário aparece-lhe no consultório. O taxista atira-se à água, sorri alarve, e às vezes no ombro, às vezes num pé, acaba sempre por lhe tocar. Repete aos amigos o seu "Já vi muito mundo!" e pisca o olho: "Aquela? O dia que a apanho a jeito como-a inteirinha."

Que faz a médica no meio do enredo? Diz que não liga a mexericos, gosta de ver as pessoas felizes e não há mal em se divertir, é tudo alegria, simpatia, amizade.

A mãe, preocupada, veio perguntar que faria eu com uma filha assim. Respondi-lhe o que bem sabemos, mas preferimos ignorar: tudo muda, no mundo há vidas, não é o da nossa juventude, o dos três vinténs.

Ocorre-me agora que entre o muito que me ensinaram esqueceram a natação.

ANTIGA ORTOGRAFIA

Advogado Zeppelin EDP Luxemburgo
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