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Fernando Ilharco

Os mal-entendidos

Ter semelhanças e amigos em comum facilita que as pessoas se entendam.

Fernando Ilharco 25 de Junho de 2017 às 00:30

No dia-a-dia às vezes o que mais cansa não é tanto o trabalho exigente ou as explicações detalhadas mas os mal-entendidos, o desconversar, os esclarecimentos que não esclarecem nada. "Digo uma coisa e percebem outra", "não foi isso o que eu entendi…", "não sei se clarifiquei bem a situação", "então mas ninguém ouviu o que eu disse?!" são desabafos comuns.


O mundo é para cada um de nós o mundo em que cada um vive com outros conforme ao que cada um é. O que as coisas são para nós não quer dizer que assim sejam para os outros. Falar não quer dizer que alguém oiça. Nem ouvir quer dizer que quem ouve compreenda. E mesmo compreender não quer dizer que quem compreendeu o que dissemos faça o que nós esperamos; é um problema. A comunicação é um problema, como o descreveu Niklas Luhmann, sociólogo alemão falecido em 1997, um dos pensadores mais relevantes do século XX.

Em primeiro lugar, talvez o mais razoável seja partir do princípio que o outro, porque é outro, não me compreenderá necessariamente; ele tem as suas experiências, conhecimento, expectativas e interesses. Depois, aceitar que quem nos compreenderá mais facilmente será em princípio quem está connosco, no mesmo local e no mesmo tempo. Ora, se é assim então o entendimento por email, telemóvel, SMS é naturalmente mais difícil. Talvez possa dizer-se que é preciso primeiro entendermo-nos no relacionamento face a face para que aqueles meios de comunicação digital funcionem bem. Por isso, às vezes, quando as pessoas trocam SMS ou emails lá sai um "sobre isso temos que falar pessoalmente."

O desafio da comunicação não é de facto falar, mas ser ouvido. Como lembra Luhmann, o objectivo final é obter o resultado desejado, ou seja, que quem me ouve tenha em conta aquilo que eu disse e faça aquilo que eu pretendo ou espero que faça. E nada garante que o outro, mesmo que me compreenda, faça o que eu quero. "Então não expliquei tudo tim-tim por tim-tim?", perguntamos por vezes surpreendidos… "Sim, mas apeteceu-me fazer outra coisa…", respondem.

O entendimento não é fácil. Falar é o caminho, mas ouvir é o que faz a diferença. Quanto mais as pessoas falam também mais possibilidade há de mal entendidos. E também à medida que a nossa voz chega mais longe é mais provável que nos percebam pior.

Há no entanto uma estratégia geral que facilita o bom relacionamento e por isso o entendimento entre as pessoas. É baixar a incerteza. Não apenas falando, mas expressando-nos positivamente com gestos e sorrisos. À medida que a conversa avance olharmos as semelhanças, as similaridades entre nós e com quem estamos a falar. As parecenças aproximam as pessoas. E por fim, para se ser entendido, é sempre bom constatar que se têm amigos comuns.

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