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Fernando Sobral

Cristalino

Madredeus entraram num novo ciclo sem desprezar o passado.

Fernando Sobral 31 de Outubro de 2015 às 00:30
O novo disco dos Madredeus, ‘Capricho Sentimental’, é o regresso ao paraíso. Aquele local idílico onde acontece o improvável: a harmonia reina. É isso, claro, que o grupo, cujo epicentro sempre foi Pedro Ayres Magalhães, busca há muitos anos, numa combustão lenta que sobrevive ao tempo. A música dos Madredeus equilibra a existência material e a vivência espiritual e traduz tudo isso em canções que pairam sobre os nossos sentimentos.

Percorrendo os 14 temas deste novo disco, sente-se que o fogo interior, que esteve na origem do grupo, continua vivo. Como escreveu Teixeira de Pascoaes, "Toda a alma é labareda, todo o ser é labareda". E esse fogo está vivo aqui, na placidez de ‘Existimos no Céu’, ‘Sei Lá’ ou ‘A Espiral’. Aqui e ali ecoam memórias dos sons de José Afonso, mas tudo isso dilui-se no contexto musical da guitarra clássica (de Ayres Magalhães) e das teclas (de Carlos Maria Trindade), a que se juntam a harpa de Ana Isabel Dias e o violoncelo de Luís Clode. Todos eles criam o veludo que envolve a voz de Beatriz Nunes, que ilude qualquer rivalidade com Teresa Salgueiro (que tantos anos foi o centro vocal e imagético do projecto) e cria o seu próprio espaço.

A sua voz é cristalina e sedutora e incorpora perfeitamente a alma dos Madredeus nesta sua nova fase. Canta a felicidade ou a dor, o eterno ou o etéreo, com a limpidez das águas de um velho rio que corre, livre, para a foz. ‘Capricho Sentimental’ é a prova de que os Madredeus entraram num novo ciclo sem desprezar o passado. Descobrindo a fonte da juventude eterna.
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