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Fernando Sobral

Um conflito sem fim

Bruno de Carvalho arrisca-se a lutar contra si mesmo

Fernando Sobral 27 de Dezembro de 2014 às 00:30

Bruno de Carvalho e Marco Silva falam linguagens diferentes. O que, dentro de um mesmo clube, transforma qualquer diálogo numa conversa entre pessoas que deixaram de se ouvir. Marco Silva, diplomático, mostrou que há limites: "Palavras do presidente? Se fico ou não satisfeito, isso fica para mim. Quando critico, prefiro fazê-lo cara a cara." É uma forma exemplar de responder a Bruno de Carvalho, que usa as palavras como dardos. As suas críticas diretas ao plantel, as veladas ao treinador, a forma como diz que os reforços são os da equipa B, mostram que nem sempre tem a noção do seu papel. O presidente do Sporting tem feito um trabalho inteligente para resolver as contas pavorosas da SAD. Mas, depois, veste a roupa de adepto e perde-se no fogo de artifício das palavras. Que começam a desestabilizar a equipa, em vez de a motivar. Tornando um campo minado o terreno que deveria percorrer com o treinador que escolheu para quatro anos. Bruno de Carvalho tem um modelo: o que Pinto da Costa já vestiu outrora. Mas está a usá-lo de modo errado. José Eduardo Bettencourt chegou a dizer que o seu modelo de gestão era o FC Porto vencedor. Bruno de Carvalho parece achar que poderá transformar o Sporting no FC Porto criado por Pinto da Costa e José Maria Pedroto, mas equivoca-se. O FC Porto nasceu de um espírito regional contra a ditadura dos clubes de Lisboa. O FC Porto dessa época tinha um tático de respeito, Pedroto, e um estratega único, Pinto da Costa. A ideia era congregar uma base social de apoio em volta do FC Porto, que seria a voz da região, o apoio financeiro local ao clube, a criação de um núcleo duro estratégico e a alteração do poder a nível da arbitragem e das segundas linhas de clubes. O seu cimento foi a luta do Porto contra os clubes de Lisboa. Hoje esse discurso esvaiu-se. O FC Porto é um clube nacional. O Sporting não é o único clube de Lisboa e assim não pode lutar por ser uma aldeia de Astérix. Um líder tem de ser um Don Juan e um Churchill. Pelo contrário, Bruno de Carvalho parece julgar que ser chefe é suficiente para justificar a sua forma de atuar, fazendo da guerra sem fim a sua estratégia. Esse pensamento está a colocá-lo numa rota de conflito interno contínuo. Algo que se virará contra si.

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