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Francisco José Viegas

Enfrentar o medo e dar um nome ao terror

Luto não foi interrompido pela notícia do tiroteio em Montrouge nem pelo minuto de silêncio que paralisou o país.

Francisco José Viegas 9 de Janeiro de 2015 às 00:30

A sensação dominante ontem de manhã nas ruas de Paris era a estupefação. Não a reação de incredulidade que tomou conta de muitos parisienses e franceses na manhã de quarta-feira, logo a seguir ao ataque. Não o reconhecimento de uma dor real que se manifestou nas praças, onde os franceses se reuniram para protestar contra o terror. Uma outra. A de ter mesmo ocorrido o mais violento e imbecil dos atentados das últimas décadas – conforme as ameaças, os avisos e as previsões. A onda de solidariedade, ou de comoção, visível nas pequenas folhas volantes que todos empunhavam (‘Je suis Charlie’), atravessara toda a noite das televisões (os debates prolongaram-se madrugada fora), despertara com as primeiras páginas dos jornais de todo o Mundo e confirmava-se nas bandeiras tricolores a meia haste: o país estava de luto.

Um luto que não foi interrompido pela notícia do tiroteio matinal em Montrouge, a sul de Paris, nem pelo minuto de silêncio que paralisou o país ao meio-dia de ontem. Porque não se tratava de um ataque como o de 1995, ao metro de Paris, onde havia uma mão invisível; e não se tratava sequer do ataque de 2013, quando Mohamed Merah assassinou dois polícias, um rabino e três crianças num ataque solitário em Toulouse (vergonhosamente desvalorizado pelos sociólogos bem pensantes de esquerda, que encontram na imigração uma desculpa em todos os sentidos). Desta vez, o alvo foi um jornal popular, rebelde e ameaçado; e o executor foi um comando treinado e hábil que reivindicou o ataque em nome da Al-Qaeda, matando aos urros de ‘Allah Akbar’, declarando estar a vingar o profeta, estabelecendo uma hierarquia das vítimas no jornal e liquidando sem piedade um polícia ferido. Era um crime com assinatura, tal como tinham sido a ‘fatwa’ contra Salman Rushdie ou o miserável assassinato do cineasta holandês Theo van Gogh. Sim, também na ocasião houve um vasto número de imbecis a defender que o melhor era "não hostilizar o Islão". Porém, desta vez atingiu-se um limite. E é esse limite que exige que também o Islão (seja o que isso for) se declare gravemente indignado, ferido, atacado. Não lhe basta condenar em termos genéricos a natureza destes atentados; precisa de denunciar os falsificadores do Islão, se se trata de falsificadores e não de "seguidores do profeta".

A estupefação foi maior ontem de manhã porque os franceses tinham descoberto que não lhes bastava apenas serem testemunhas de um protesto de dimensões simbólicas, polvilhado com as melhores palavras de circunstância – mas que o ataque de anteontem os colocara definitivamente na mira dos fanáticos, e que os fanáticos desta natureza não debatem ideias enquanto matam. Não é por acaso que a parte V do romance de Michel Houellebecq lançado anteontem, ‘Submissão’, começa com uma citação do aiatolá Khomeyni: "Se o Islão não for político, não será nada."

Na quarta-feira à tarde, muitos parisienses falharam os seus compromissos e alteraram os seus horários, ou porque a cidade estava mergulhada numa certa agitação ou porque muitos deles seguiram à risca o conselho das autoridades, que lhes pediam para ficarem em casa. Mas ontem era necessário sair à rua e assinalar essa capacidade de resistir às ameaças. Logo pela manhã, um casal de amigos meus foi à redação do ‘Charlie Hebdo’ participar na homenagem aos jornalistas assassinados. No meio das flores, dos desenhos, das mensagens coladas um pouco por todo o lado, alguém tinha deixado uma garrafa de um belo vinho ‘Côté du Rhône’. Desta, os seguidores do profeta não poderão beber.

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