Francisco Moita Flores

Professor universitário

Fartos!

01 de fevereiro de 2015 às 00:30
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Pelo cinismo das interpretações. Para uma certa esquerda portuguesa que olha a vida através do umbigo feito de lugares-comuns, a vitória do Syriza é o renascimento da esperança, é o fim da opressão dos mercados, o povo no poder. E depois é muito bom, porque é a esquerda. Mas não sabem explicar porque é que a esquerda grega consegue vencer eleições e aqui, neste cantinho, não passam de um bando de aves sem poiso, sem destino, à estalada entre si.

Por outro lado, a nossa direita embandeirou no ressabiamento, sobretudo porque se convenceu de que a Grécia virou à esquerda, coisa tão herege quanto infamante. Porque os gregos são corruptos, preguiçosos, cigarras, e nós, é o governo quem o diz, as formiguinhas que trabalham para agradar aos credores. Depois há os moralistas, que adivinham um mau augúrio para o futuro grego governado por extremistas, seja lá isso o que for. Até o PS, que viu o partido irmão na Internacional Socialista ir pela sarjeta abaixo, conseguiu ver nesta vitória uma grande esperança para a necessidade de mudança em Portugal. Nenhum deles quer perceber o que disse o povo grego. Nenhum deles quer acreditar nessa verdade brutal que se esconde por detrás destas eleições e que, a breve prazo, vai ser notícia bem mais poderosa e apocalíptica quando chegar a vez da Espanha.

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É que não há viragem nem à esquerda nem à direita. Aquilo que está a crescer por toda a Europa em crise é um outro fenómeno, bem mais singular, sociológica e historicamente decisivo para os modelos políticos em que tem assentado o funcionamento democrático.

São cada vez mais milhões a estarem fartos, completamente fartos, desta forma cínica de fazer política, em que os carrascos de ontem se preparam para tornar ao poder aproveitando a ausência de memórias recentes. E vice-versa. Se as imposições brutais da troika são a moderação democrática, vou ali e já volto. É disto tudo que está farto quem já não tem emprego, nem crédito, nem casa, nem pão, nem saúde, nem força para aguentar este regime ditatorial em que os especuladores mandam e o povo obedece. Fartos de verem o País ser humilhado com cúmplices internos que se ajoelham perante a troika e traem quem os elegeu. Fartos! Existe uma diferença séria depois das eleições gregas. Não sabemos qual vai ser futuro. Sabemos, isso sim, que algo de novo vai acontecer. 

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