Desde que, aos poucos, se foi expropriando ao Estado as funções de segurança, intrínsecas ao conceito de soberania que tem sido grande o esforço para credibilizar, legitimar, aceitar a acção das empresas de segurança privada. Pagar a forças públicas policiais é caro. Sobretudo em actividades menores de controlo e vigilância. Permitir que certas tarefas, nomeadamente da boa paz em discotecas e bares, de eventos desportivos e até controlos de acesso a aeroportos, ficassem na esfera dos privados, garantiu a proliferação de empresas de segurança privada que ganham milhões.
Sabe-se o estado a que isto chegou. Não é de agora. Com excepção de um punhado de empresas, talvez os dedos de uma mão cheguem para as contar, que aproveitou este quinhão oferecido pelo Estado para servir com zelo e competência, sob a capa de protecção privada, multiplicaram-se organizações criminosas – com alvará governamental – que são, elas próprias, fontes de insegurança e de banditismo.
O último caso ocorrido em Lisboa, junto à Urban Beach, onde dois jovens foram brutalmente espancados, não pode ser lido como um caso isolado. Faz parte de um percurso de brutalidade e assassinatos que integram outros casos célebres como a Noite Branca do Porto e as noites de violência em várias localidades do Algarve durante o período de Verão.
A verdade é que, ao abrigo da lei, verdadeiros exércitos de bandidos, passadores de droga, traficantes de sexo, comerciantes de armas, se escondem nessas pseudo-empresas de segurança privada, sobretudo naquelas que controlam os prazeres da noite, que há muito deveriam ter sido objecto de sindicâncias rigorosas e verificação quase diária dos indivíduos que contratam e das suas qualificações. Nada disto se faz, e desta forma, permite-se que verdadeiras quadrilhas, em nome da segurança, espalhem violência e terror gratuitamente. É no que dá um Estado desleixado com a vida dos cidadãos.
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