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Francisco Moita Flores

Crimes impunes

O crime de ponte de Sor não irá ter culpados. o poder iraquiano assim decidiu.

Francisco Moita Flores 23 de Outubro de 2016 às 00:31
A vertigem que resulta da necessidade de encontrar notícias é um processo estranho que devora num ápice aquilo que foi notícia ontem. O esquecimento dilui casos e acontecimentos que fizeram manchetes para dar lugar às novidades do dia, fresquinhas. É um processo de conhecer que apenas resvala pela memória sem deixar rasto. É o maior pesadelo dos políticos, que se esforçam por ser notícia, segundo o egocentrismo de cada um, imediatamente engolidos pela novidade seguinte que tanto pode ser um incêndio ou um ataque terrorista.

Esta semana, foi preciso remexer nas vagas memórias deste verão. Em Ponte de Sor, um rapaz, selvaticamente espancado pelos filhos do embaixador do Iraque, ficou às portas da morte, fez manchetes sucessivas em jornais e televisões, provocou estridentes debates sobre os limites da imunidade diplomática que protege a brutalidade selvagem de dois energúmenos. O Ministério dos Negócios Estrangeiros assumiu posição de forcado a citar o toiro. Bateu as palmas, gritou em desafio ao animal, arrastou os pés com insolente dignidade, declarando que, com este governo, isto iria até às últimas consequências.

Meteram-se os incêndios pelo meio, as eleições americanas, a fuga de um assassino violento, o campeonato europeu de futebol e desapareceram as notícias sobre Ponte de Sor, logo a indignação mudou de alvo. Só que agora veio a resposta do Iraque sobre o pedido de levantamento da imunidade diplomática aos dois agressores. Sim, pois, talvez, que ainda é cedo, vamos ver. Por cá, a reação política foi informar os cidadãos que iriam estudar a coisa. Ou seja, o forcado desistiu da sorte, atirou o barrete ao chão e já se vê a recolher em segurança. O toiro continuará por ali, mais atento às notícias do dia, nas tintas para a voz grossa dos Negócios Estrangeiros. O crime de Ponte de Sor não irá ter culpados. Chegaremos à conclusão que pura e simplesmente não existiu. O poder iraquiano assim decidiu. 
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