Barra Cofina

Correio da Manhã

Colunistas
9
Piloto morre em corrida de motos no Estoril

Francisco Moita Flores

A canzoada

Quem precisa de liberdade para que a Justiça se exerça com grandeza não pode insultar.

Francisco Moita Flores 22 de Março de 2015 às 00:30

Uma sociedade submetida aos desígnios de procuradores rapidamente degenera num Estado inquisitorial, policialmente asfixiado, submetido ao medo e ao capricho de um qualquer magistrado. Nenhum deles tem poder de inspiração divina. Todos eles são iguais a nós, com mais defeitos ou mais qualidades. E alguns são canalhas, admito. Não existem profissões bacteriologicamente puras no que respeita ao caráter dos homens. Todos somos fortes e fracos.

Uma sociedade submetida à censura é o outro lado da cela onde se abriga a violação dos mais elementares direitos do Homem, cortando-lhe o direito à expressão, ao protesto, à indignação, ao aplauso do contrário.

Num Estado de Direito, tais ameaças diminuem drasticamente e a sociedade respira outro asseio, quando aos procuradores que acusam, respondem advogados que defendem. Quando a comunicação social intervém, noticiando abusos, práticas ilegais, transformando-se em voz pública que regula os excessos, que denuncia desmandos, que noticia uma Justiça com decência e bom senso. Sem liberdade, sem liberdade de expressão, é impossível construir uma sociedade decente e culta.

Gostei de saber que João Araújo iria defender José Sócrates. Acusação tão grave sobre um ex-primeiro-ministro merece um advogado de mão-cheia. Passei a vida a debater com advogados e quase sempre em campos opostos. A vida ensinou-me a desprezar os medíocres, que pouco mais fazem do que pedir justiça. E a respeitar os audazes. Vi homens destes, ao longo de décadas, a darem tudo para exercer a sua função. Desde o talento rigoroso, ao conhecimento profundo das leis, por vezes com sacrifícios pessoais que iam até às lágrimas. Bem longe dos merceeiros em que se converteram muitos. Apostados na lei e na liberdade, indiferentes a mordomias, a pareceres pagos principescamente, às manhas do poder.

Não são criminosos, apenas os representam, e por eles se esvaem. Admiro esta raça de homens. João Araújo formou-se nesta escola da advocacia. Vai até aos limites da lei, da manha, da sedução, da manipulação na defesa de quem patrocina.

Porém, ultrapassou os limites da coragem e do heroísmo. Insultou alarvemente uma jornalista, tratou todos os outros, mesmo os mais servis, por ‘canzoada’. Foi uma mágoa e uma desilusão. Quem precisa de liberdade para que a Justiça se exerça com grandeza, não pode cair no insulto. É próprio dos medíocres. Resta-lhe pedir desculpas pela agressão.

João Araújo José Sócrates crime lei e justiça justiça e direitos política questões sociais
Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)