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Francisco Moita Flores

Amor de mãe

Só o amor de mãe não morre. É muito raro encontrar uma dádiva assim.

Francisco Moita Flores 12 de Junho de 2016 às 00:30
Neste ruído de feira que faz mexer a política, o futebol, a algazarra nacional pelos grandes feitos do governo, pela pobreza crescente do País, nada me tocou tanto como o caso do Hospital de S. José.

Chamaram-lhe o bebé-milagre. Uma mãe em morte cerebral doou o seu corpo para que a gestação do filho se consumasse. Só o amor de mãe não morre, depois da morte. É muito raro encontrar uma dádiva assim. Só uma mãe poderia realizar tal prodígio. Porém, não é um bebé-milagre. Lourenço vai ser um miúdo feliz, apesar de ter perdido o seu maior amor no momento em que nasceu.

Milagre talvez não haja. Mas existe uma equipa, interdisciplinar, que trabalha no Hospital de S. José, que ultrapassou a dimensão moral do estrito dever de assistência para ganhar a transcendência própria dos grandes seres humanos. Durante meses, foram serviços de saúde e foram afeto invulgar.

Colocaram a ciência, a ética, os valores do trabalho e da alteridade ao serviço daquele combate que fez a Vida suplantar a Morte. São um prodígio de abnegação, um exemplo que está ao lado dos heróis que Marcelo quis celebrar neste 10 de Junho. É um orgulho desmedido. Sinto uma grande honra por pertencer ao tempo em que este grupo de homens e mulheres, que não conheço, fez da Ciência ao serviço do Amor o verdadeiro milagre da Vida.

Desconfio que a política não tem sensibilidade para estes momentos. Os seus atores são demasiado calculistas, egocentristas, para perceber este imenso sentido da dádiva. O ministro da Saúde parece diferente deste estereótipo. Não sei. Porém, se for ‘belo, bom e grande’, como sublinhava Antero de Quental para reconhecer a grandeza dos homens, não deixa cair no saco roto do esquecimento o nascimento do Lourenço. É um dos momentos altos da Saúde em Portugal. O exemplo da sociedade perfeita que casa amor e razão.

Paz eterna a esta mãe que partiu. Muitas felicidades para o Lourenço. E o meu aplauso à equipa que conseguiu este prodígio.
País Hospital de S. José Lourenço Marcelo Antero de Quental
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