Barra Cofina

Correio da Manhã

Colunistas
1
Piloto morre em corrida de motos no Estoril

Francisco Moita Flores

Censura, não!

Calar as publicações do grupo Cofina é um enxovalho à Constituição da República.

Francisco Moita Flores 8 de Novembro de 2015 às 00:30
Faço parte de uma geração que sentiu a força tenebrosa do lápis azul. Da censura ou exame prévio, como então se chamava.

Não era só a mordaça aos jornais. Era imposta aos livros, às peças de teatro, aos filmes.

Havia alguém, numa cátedra invisível, que decidia clonar as nossas cabeças para lermos tudo igual, vermos tudo igual, pensarmos tudo igual.
Não havia cores nesse mundo escrito a preto-e-branco.

Apenas ignorância, estreiteza de vistas, o culto da indigência intelectual e cultural.

Passaram mais de quarenta anos sobre esses tempos de barbárie contra a inteligência livre e crítica, mas a costela censória ficou. Uma estranha saudade para quem se habituou a viver num país livre.

Habita nas entranhas daqueles que julgam poder domesticar a liberdade de expressão.

Não tem o vínculo opressivo de outros tempos, porém procura moldar discursos, encaminhando-os para uma linha divisória que separa o mundo feito à medida dos muros entre bons e maus.

Os sossegados e os inquietos.

Os servidores e os insurrectos.

Ou, dito por outras palavras, que separa o politicamente correcto, institucional, devidamente formatado com os discursos dominantes, da insubordinação e da rebeldia.

Calar as publicações do grupo Cofina, em particular, este jornal, no que respeita às notícias sobre a Operação Marquês, querendo ser uma forma de agressão contra a inquietação jornalística, é, antes do mais, um enxovalho à Constituição da República.

E um atestado de menoridade a quem não alinha na política de rebanho e faz da ousadia um desafio, que se tornou a chave do sucesso das referidas publicações e particularmente do Correio da Manhã.

Não espantou, por isso, o grito de alerta que percorreu várias correntes de opinião amantes da liberdade quando se soube da mordaça. Nem admira o silêncio ensurdecedor dos responsáveis políticos que paira sobre o assunto, com honrosas excepções.

No fundo, aquilo que o poder quer são serviçais mansinhos e obedientes.

A liberdade de expressão é coisa boa de defender quando parece bem. E quando dá jeito e não é risco.

Pouco importam os saudosos sonhos com o velho lápis azul, que amordaçou pensamentos e palavras.

Não passam de insultos à liberdade.
opinião Francisco Moita Flores
Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)