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Francisco Moita Flores

Tratores assassinos

Este ano já morreram oitenta homens vítimas de acidentes com tratores.

Francisco Moita Flores 28 de Junho de 2015 às 00:30
Quem vive nas cidades não entende esta crónica. São muitas as crianças que nunca viram um frango vivo, uma vaca a ruminar ou a lavra de uma vinha. Vivemos a cultura do ‘fast-food’, da internet, dos centros comerciais, onde a política discute a agricultura e a pecuária como entidades abstratas que ganham corpo nesta ou naquela feira promovida por agricultores que trazem, uma vez por ano, os campos às cidades. Porém, há um outro Portugal para lá do ‘homem urbano’, expressão que remete para a cultura citadina e para níveis de educação que afastam a ideia de campo e de vida vivida noutros padrões a que não estamos habituados. Um outro país que não conhece a internet. Homens e mulheres com a vida endurecida pela rijeza do trabalho, com o coração repartido entre a esperança de uma boa colheita e o vendaval que pode, por acidente, destruir um ano de trabalho.

Aqui utiliza-se uma máquina que não circula nas grandes cidades. O trator. Máquina que chegou tardiamente com a mecanização agrícola, nos anos sessenta e, muitos deles, têm quase essa idade, continuando a lavrar, a carregar azeitona e uvas, que nós conhecemos através das latas e frascos que a cidade nos oferece. Instrumento tão útil para aumentar a produtividade e amaciar o trabalho braçal.

Este ano já morreram oitenta homens do campo, vítimas de acidentes com tratores. Nos últimos dois anos morreram cerca de duzentos. São demasiados mortos para que se passe por eles com a indiferença com que as políticas agrícolas e a inspeção do trabalho passam pelos campos do País. A maioria dos mortos por capotamento. Muitos deles por excesso de carga ou, mais grave, devido ao excesso de horas de trabalho de quem os conduz. É um mundo esquecido, ignorado pelos discursos políticos dominantes. Nem Portas, que na sua linguagem imagética e retórica, falava das suas preocupações com a ‘lavoura’ em vez de falar em agricultura. São os pobres dos campos que morrem assim debaixo dos seus velhos tratores, sem dinheiro para comprar proteções, sem tempo para a reparação, sem tempo para o descanso recuperador de energias.

Agora, os sinistrados, por uns dias, foram notícia. Só voltarão aos noticiários quando mais mortos acontecerem. De resto, são os eternos esquecidos e o perpétuo sofrimento para arrancar as colheitas do chão que amam e que tratam como seu. E pelo qual morrem.
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