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J. Rentes de Carvalho

Ares de leão

Já me tenho perdido a sonhar sobre que extraordinário poder possui.

J. Rentes de Carvalho 14 de Outubro de 2016 às 00:30
É interessante vê-lo quando chega ao café: a porta abre-se e durante dois ou três segundos nada acontece, a pausa teatral antes do galã aparecer no palco.

Surge então, grande, pesado, a cabeça leonina erguida, os olhos flamejantes. Entra, roda sobre si mesmo a fechar a porta, cumprimenta este, acena a outro, a passos medidos procura uma mesa.

Escreve, pinta, canta, representa, esculpe, compõe, é pianista talentoso, realiza performances, vê-se com frequência na televisão, ouve-se com frequência na rádio.

Raro passa semana sem que num ou noutro jornal não apareça escrito seu, ou não se fale das suas muitas actividades.

Verdadeiro furacão que é causa ciúmes, e já me tenho perdido a sonhar sobre que extraordinário poder possui quem realiza tanto, no mesmo tempo em que eu tão pouco faço.

A minha inveja, porém, vai menos para o que ele faz, do que para o modo como se mostra.

Eu francamente gostaria de saber entrar assim no café, vestido de preto, o grande cachecol vermelho enrolado no pescoço, cabeça ao alto, e aquela esplêndida segurança de si mesmo.
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