Barra Cofina

Correio da Manhã

Colunistas
7
Piloto morre em corrida de motos no Estoril

J. Rentes de Carvalho

Boca a boca

A nossa amizade ganhou um toque surrealista.

J. Rentes de Carvalho 9 de Setembro de 2016 às 00:30
Conhecemo-nos desde a universidade, nunca fomos íntimos, mas encontramo-nos de longe a longe e, duma maneira ou doutra, guardamos um sentimento de camaradagem.

À moda antiga, mantemos o hábito de escrever cartas, levando ele a melhor na beleza da caligrafia. Porém, como se padecesse de falhas da memória ou comece a ficar gagá, ultimamente as suas missivas são quase sempre idênticas, e resumem-se com poucas variantes a um texto assim: "A minha vida vai indo calma, na forma do costume. Saio pouco, continuo a pintar aguarelas. Também tenho escrito umas coisas que deixo na gaveta, porque não me atrevo a publicá-las. Gostaria que um dia lhes desses uma vista de olhos, pois sinto falta do teu senso crítico. Manda dizer quando nos voltaremos a encontrar."

Mas quando nos encontramos ele parece esquecer o que escreveu e pintou, desinteressa-se do meu senso crítico, a sua conversa ronda em torno do sem-fim de achaques e incómodos que o afligem.

De modo que a nossa amizade ganhou um toque surrealista: parece viva na ausência, mas assim que nos vemos só à custa de muito boca a boca consigo eu evitar que ela faleça.
artes cultura e entretenimento
Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)