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J. Rentes de Carvalho

O martírio do beijo

Numa sociedade de esbanjamento, o desperdício aplica-se a tudo.

J. Rentes de Carvalho 8 de Julho de 2016 às 01:45
Tudo tem a sua hora e modo, princípio que deveria também valer para o ritual do beijo, seja de amor, ternura, cortesia, ou aquele a que Judas deixou ligado o seu nome.

O caso é que, numa sociedade de esbanjamento, o desperdício se aplica a quase tudo. Começa pelos objectos, passa para os sentimentos, as maneiras, sabe Deus que mais.
Assim, por exemplo, aquele saltar que em tempos era apenas típico dos Zulus, vê-se hoje em tudo quanto é festival, mas sem a elegância que essa tribo mostrava.

O beijo, por sua vez, que tirante nas febres da alcova era um roçar de lábios pelas faces, as mãos das senhoras, os anéis dos bispos e os pés das imagens de Cristo, tornou-se um gesto banal, inflacionado, e por vezes, como no caso dos pais que beijam os filhos nos lábios, ganhando suspeitas de incesto.

Eu, que há anos não ia à missa e ontem assisti a uma do sétimo dia, surpreendeu-me, no final, ver-me rodeado de estranhos a beijar-me as faces, idosas que pareciam sugá-las, anciãos a esfregar nelas a bigodeira.

Saí dali em pecado, perguntando-me o que pensará o Senhor de tanto beijo.
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