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José Diogo Quintela

A formiga tem catarro

Se o clima fosse uma matrioska, as emissões humanas de CO2 seriam a última bonequinha.

José Diogo Quintela 2 de Dezembro de 2017 às 00:31
Há 15 dias, Filipe Duarte Santos, provavelmente o maior especialista português em clima, escreveu no Público o artigo ‘Secas que transformaram civilizações e a seca em Portugal’, um aviso sobre os efeitos de uma seca extrema. Relata a terrível seca no Egipto, em 2150 a.C. Arrepia, o momento em que, enquanto dezenas de autotanques abastecem Tebas, os sacerdotes de Osíris rogam ao Faraó que ordene um corte nas emissões de CO2.

É pilhéria, leitor. Nessa época não existiam fábricas, nem autotanques. Ou seja: havia alterações climáticas sem emissões, não havia era os meios de agora para combater os efeitos das alterações climáticas.

O que impressiona nas filas de autotanques em Viseu é nenhum andar a pedais. Ou a renováveis. É tudo a gasolina. As barragens estão vazias, o vento e o sol são intermitentes – e caros, descobriu chocado o país! Numa catástrofe, só dão garantias os combustíveis fósseis. Que é justamente a fonte de energia que querem limitar.

Pretende-se, com essa limitação, voltar às temperaturas de 1850, o proclamado benchmark dos anos amenos. Mesmo que o CO2 controle o clima, se acabarmos com a energia acessível e barata não é só a temperatura que regride a 1850. A mortalidade infantil e a esperança de vida, entre outros índices que melhoraram desde 1850, também caem.

Aliás, mais depressa regridem esses do que os da temperatura. É que a relação direta entre emissões e temperatura é discutível. Atingimos agora o recorde de concentração de CO2 na atmosfera nos últimos 3 milhões de anos. Se a relação é de causa e efeito, teríamos também a temperatura mais elevada dos últimos 3 milhões de anos. Mas não temos.

É improvável que seja o CO2 emitido por nós que controla o clima. Veja-se, por exemplo, que o CO2 é apenas 3% dos gases com efeito de estufa (95% é vapor de água) e desses 3% só 3% são emissões humanas. E, além do efeito de estufa, outros factores influenciam o clima: sol, nuvens, inclinação do eixo da terra, oceanos e outros. Ou seja, se o clima fosse uma matrioska, as emissões humanas de CO2 seriam a última bonequinha.

Porquê, então, a birra com o CO2? É o mesmo antropocentrismo que condenou Galileu por revelar que não éramos o centro do universo.

A humanidade não suporta a sua irrelevância e flagela-se com um presunçoso sentimento de culpa. Daí a fanfarronice de querer transformar o único niquinho em que tem alguma influência no grande interruptor do clima.

Usando o exemplo de outra crença religiosa que atribui significado moral a cataclismos climáticos, culpando as acções humanas pelos castigos divinos, é como se a Arca de Noé começasse a meter água e, para a salvar, o casal de formigas dissesse ‘o nosso peso está a afundar o barco, vamos sacrificar-nos pelos outros bichos’ e saltasse.

A humanidade é a formiga. E julga que tem catarro.

Já agora
Devoção
Porque é que o Sporting é o maior? 
De facto, porque é que o clube grande que menos ganha é o maior? Vejamos: há fortes indícios de que o Benfica montou um esquema de controlo da arbitragem e que o Porto voltou a montar o seu. As claques que o Benfica nega existirem, mas apoia, chegam a matar. As do Porto, não tendo ainda morto ninguém, fazem esperas a árbitros. A disputa parece a guerra entre as famílias Corleone e Tattaglia.

No entanto, diz-se que o grande problema do futebol português é o Presidente do Sporting ser desbocado no Facebook.
Só pode ser porque o Sporting é o maior clube de Portugal.

E mais
O que pagar quando tudo arde?
A direita teve a lata de pedir isenção de IMI para os imóveis que arderam nos fogos deste ano. Por que carga-d’água? Não faz qualquer sentido. Aliás, muito brando foi o Governo: estes imóveis deviam era sofrer um agravamento de IMI.

Ficaram com uma vista muito melhor. Não só deixaram de ter várias janelas pequenas para passar a ter uma única, panorâmica, como até deixaram de ter à frente outras casas a taparem a vista. Mais: como ficaram sem telhados, aumentou a exposição solar. Tiveram sorte e ainda se queixam. 

Só para terminar
Renováveis
Sol no painel fotovoltaico, chuva no nabal
Oquê?! Para cortar nas emissões de CO2 temos que recorrer a fontes de energia caras e pouco eficientes, o que aumenta o preço da electricidade? Ó diabo! Querem ver que as renováveis são um mau negócio? Desta não estava à espera!

Ser a favor da eliminação dos combustíveis fósseis, mas não estar disposto a pagar a energia que os vai substituir é tão hipócrita como a viracasaquice de Costa. A reacção do Bloco é bizarra: parece uma esposa que se indigna por ter sido traída pelo marido, depois de andar anos a defender que a monogamia é uma tolice.

Um dos maiores argumentos anti-combustíveis fósseis é que quem os defende está a soldo da poderosa indústria petrolífera.

Agora que se percebeu que os produtores de renováveis também são milionários, pode-se dizer que também compram apoiantes?
José Diogo Quintela opinião
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