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José Diogo Quintela

A minha filha devia imitar Cristo

Sem conviver com crianças da sua idade, é natural que Cristo se tenha tornado numa pessoa especial.

José Diogo Quintela 24 de Dezembro de 2016 às 00:30
Neste Natal, dei por mim a desejar que a minha filha fosse mais parecida com Jesus Cristo. Não no sentido de achar que o seu pai é o maior, porque não é assim tão crédula. Queria-a mais parecida com Nosso Senhor porque, como Herodes mandou matar todas as crianças da sua idade, Jesus não tinha amiguinhos com quem combinar actividades. O que significa que José não era obrigado a levantar-se ao Sábado de manhã para levar Jesus a uma festa num barracão nos subúrbios de Nazaré, para andar aos saltos num insuflável com mais 50 crianças histéricas, enquanto José fazia conversa de chacha com outros pais igualmente ensonados.

Não sou teólogo, mas creio que o Massacre dos Inocentes foi a forma que Deus encontrou para convencer José a criar o seu filho. A barganha terá sido mais ou menos assim: "Eu assumo o miúdo, com a condição de não ter que o levar a festas, treinos, nem ter de assistir a espectáculos infantis".
"Nem ao Panda e os Caricas?", suplicou o Senhor.

"Especialmente ao Panda e os Caricas", intransigiu José.

"Então mais vale não haver miudagem!", amuou Deus. No fundo, o Massacre dos Inocentes foi uma espécie de pensão de alimentos divina, paga a Maria e José.

Sem conviver com crianças da sua idade, é natural que Cristo se tenha tornado numa pessoa especial. Mais do que filho único de Deus, o que o marcou foi ser menino único da Galileia. Jesus nunca pôde culpar os amigos por causa de uma asneira que tenha feito. O ‘não fui eu!’ estava-lhe vedado.

Confrontado com um 57% a matemática, não podia retorquir ‘mas o Malaquias teve negativa!’ Quando o mandavam para a cama, não podia alegar que os amigos ficavam a pé até mais tarde. Não havia amigos. Ninguém com quem trocar cromos. Ninguém com quem partilhar pornografia. Ninguém a quem perguntar se era normal o seu pai só falar consigo através das nuvens.

Qual ressurreição de Lázaro! O verdadeiro milagre é não se ter tornado num sociopata. O que o safou foi o mesmo que a muitas crianças que se entretêm sozinhas: a magia. Começou com truques com cartas. Só depois se abalançou para coisas maiores, como cegos e leprosos.

Hoje em dia, a vida social infantil é muito intensa. As crianças têm mais combinações que o Totoloto. O que explica que, em dois mil anos, não tenha voltado a aparecer um Messias. Um Messias precisa de tempo para ócio e os miúdos têm mais que fazer: há aulas de ballet, saraus de ginástica, jogos de xbox. Quem quer pregar a salvação quando pode ir andar de trotinete para o skate park?

Se nascesse agora, Cristo não teria tempo para ser o Menino Jesus. Ia estar muito ocupado com os ensaios da peça de Natal da escola. A desempenhar o papel de pastor. No público ia estar José, novamente espectador contrariado de um presépio.
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