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José Diogo Quintela

Caímos como patinhos feios

Éder é um patinho lutador. Mas sobre isso não escrevem contos de fadas.

José Diogo Quintela 16 de Julho de 2016 às 01:45
Há um Portugal antes do biqueiro épico de Éder e um Portugal depois do biqueiro épico de Éder. Desde Domingo, Portugal cresceu como nação. Não pela vitória, que é passageira, mas pela lição dada por Éder, que perdurará.

Fernando Santos comparou Éder ao Patinho Feio. Portugal gostou da comparação e criou uma página na internet para que as pessoas possam pedir desculpa ao Éder por terem feito pouco dele. Mostra que o povo português assimilou o cínico ensinamento da fábula de Hans Christian Andersen: tem cuidado com quem gozas, não vá dar-se o caso de ser alguém que vai acabar por se tornar importante, rico ou bonito, mostrando assim que perdeste uma boa oportunidade para estar calado.

Portanto, obrigado, Éder. Por tua causa, Portugal é hoje um país mais adulto, com a hipocrisia e a dissimulação características dos adultos. Por tua causa, os portugueses são um povo que deseja aprender. Nomeadamente, sobre ornitologia. Para poderem fazer pouco da aparência de aves, mas de forma mais instruída. Assim, não caem no erro de tentar humilhar um futuro cisne, que por sua vez os vai humilhar a eles quando aparecer todo bonitão com o seu pescoço esguio.

Não significa que os portugueses vão parar de amesquinhar. Pelo contrário. Vão é deixar de amesquinhar à balda, para passar a fazê-lo com mais profissionalismo. A partir deste momento terão mais cuidado a distinguir um Patinho Feio (com quem não se deve gozar) de um pato que é feio e vai continuar a ser feio (com quem se pode gozar). Os portugueses já conseguem fazer aquilo que na finança se chama ‘due diligence’. Graças a Éder, tornaram-se bullies mais bem preparados.

Isso dá jeito. Se em Portugal se costuma perguntar ‘sabe quem é que eu sou?’ é porque há gente que trata melhor certas pessoas se souber que são importantes. Da calculadora passámos ao calculismo.
O cidadão português está mais ponderado e, se quer enxovalhar uma pessoa, certifica-se de que é mesmo alguém sem qualquer característica acima da média, ainda que escondida, e que não há hipótese nenhuma de vir a surpreender pela positiva.

Se quisermos ser rigorosos – por sistema, não sou, mas compreendo que o leitor aprecie rigor e o queira ver neste texto – Éder não é, tecnicamente, um Patinho Feio. O Patinho Feio original deslumbra o mundo quando cresce e se revela um cisne. Está-lhe nos genes, não teve de fazer nada para isso. Já o Éder teve de trabalhar muito e, por mais versões que eu tenha lido do conto de Andersen, não encontro uma única referência a qualquer mental coach que tenha ajudado o patinho a tornar-se cisne. O Patinho Feio original não teve de se esforçar, bastou esperar pela puberdade. Éder é um Patinho Lutador. Mas sobre isso não escrevem contos de fadas.

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Delay, a intuição dos pobres
Para ser justo, nem todo o país achou que Éder fosse um Patinho Feio. Houve portugueses que acharam que era apenas um pato, igual aos outros patos convocados, capaz de fazer coisas de pato. O meu primo, por exemplo. Na segunda parte do prolongamento, disse-me: "Vai ser golo do Éder". No fim, perguntei-lhe: "Como é que sabias que o Éder ia marcar? Intuição?" E ele: "Não, estava a fumar na varanda e ouvi os vizinhos. A tua televisão tem um delay anormal". A maior lição do Éder é que, se não queremos passar por parvos, devemos contar sempre com o delay.

Não há festa como esta à qual me vou colar
Depois de uma semana a dizer que mesmo a sanção zero é a subjugação simbólica do nosso povo aos povos mais fortes, a esquerda portuguesa reuniu-se no Palácio de Belém para se associar à celebração da subjugação simbólica dos povos europeus ao povo europeu mais forte, que é o nosso.

Celebração que só foi possível porque há portugueses que emigram para poderem exercer a sua profissão nas condições que, por não ser um país grande, nem rico, Portugal não pode oferecer.

No entanto, não é por andar há anos a lamentar que portugueses tenham de emigrar para progredir na vida que a esquerda portuguesa deixou de se colar aos festejos de algo que só sucedeu porque, justamente, há portugueses que emigraram para progredir na vida. Ah, a ironiazinha destas condecorações indecorosas.

A costumeira incoerência sempre que há um atentado
Não foi preciso esperar muito tempo até aparecer a costumeira incoerência. Muitas das pessoas que, nas redes sociais, vibraram com a vitória da equipa de futebol da nossa comunidade são as mesmas que agora dizem que fazemos mal em lamentar mais os mortos de Nice, por serem de uma comunidade que nos é próxima, do que os mortos de outros atentados, como no Iraque e na Arábia Saudita, por serem de comunidades mais longínquas. Aparentemente, o critério de proximidade só funciona com jogadores de futebol.
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