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José Diogo Quintela

Cartas de Sóror António Domingues

Um banqueiro e um governante enrolam-se, mas quem pode contrair uma doença venérea é o contribuinte.

José Diogo Quintela 11 de Fevereiro de 2017 às 00:30
A correspondência entre António Domingues e Mário Centeno insere-se na tradição literária do romance epistolar. É uma espécie de ‘Cartas Portuguesas’, que, em vez de trocadas por uma freira alentejana e um oficial francês, são-no por um banqueiro e um ministro das Finanças. Também há juras de amor quebradas, também há apelos lancinantes, também há abandono e silêncio. Tirando o facto de Domingues conseguir ser um bocado mais crédulo que Sóror Mariana Alcoforado, são iguaizinhas.

Só ao nível das consequências é que há diferença entre o namoro religioso- -militar e o político-financeiro. Um banqueiro e um governante, digamos, enrolam-se, mas quem pode contrair uma, digamos, doença venérea é um terceiro elemento. Geralmente, o contribuinte.

De resto, as missivas entre Domingues e Centeno versam sobre os mesmos temas que as escritas por amantes normais. Por exemplo, na carta que dirige a Centeno, Domingues relembra, com alguma mágoa, certas promessas que lhe terão sido feitas pelo Ministro. Eis o excerto mais pungente: ‘(…) a não submissão ao dever de entregar no Tribunal Constitucional a declaração de património consistia, desde o início, uma premissa essencial (…) E foi uma das condições acordadas para aceitar o desafio de liderar a gestão da CGD (…) como de resto o Ministério das Finanças publicamente confirmou.’

Ui! A tensão emocional! O despeito! Por detrás da linguagem técnica, há um mealheiro em forma de coração partido. Trata-se da versão engravatada da típica paixoneta adolescente. O rapaz, para lhe serem permitidas certas liberdades, atravessou-se com garantias que, depois de atingido o desiderato, não quis assegurar. Num bilhetinho, a rapariga vem lembrar que, na altura, só cedeu às investidas em troca de salvaguardas. ‘Uma das condições acordadas’ é jargão jurídico para ‘juraste namorar comigo’, enquanto ‘aceitar o desafio’ equivale a ‘deixar tocar na pele por debaixo do sutiã’.

Finalmente, o ‘como, de resto, o Ministério das Finanças publicamente confirmou’, é, no fundo, ‘quando voltámos de curtir atrás do ginásio deste-me a mão em frente a toda a gente’.

Quem tem razão? Por um lado, Centeno deu sinais inequívocos de que iam ser namorados. Por outro, não deixou nada escrito. Para ele, atingido pelo ardiloso Cupido da banca, tudo não terá passado de uma curte de Verão. Já Domingues devia saber que o que um rapaz promete enquanto está ruborizado e a arfar não conta. Mesmo que haja advogados ao barulho. Temos, portanto, o galifão, a ingénua e, em António Costa, o amigo sonso que vem chamar galdéria à ingénua.

Centeno foi malandro? Ou Domingues foi cândido? Nunca se saberá. A única coisa que aprendemos é que no amor, na guerra e na negociação de contrapartidas para aceitar cargos em bancos públicos, vale tudo.

O PROMETIDO É DEVIDO    
António Domingues é o rapazinho sobre quem Rui Veloso canta n’O Prometido é Devido, o garoto que faz uma estupidez porque lhe prometeram uma recompensa impossível: ‘Recordo aquele acordo / Bem claro e assumido / Eu trepava um eucalipto / E tu tiravas o vestido.’ Domingues trepou ao eucalipto, mas Centeno não se despiu.

Com esse nível de credulidade, é uma pena que Domingues não tenha ficado na CGD. A Caixa valoriza a ingenuidade dos seus administradores e, nisso, Domingues só ia ficar atrás de Vara, o anjinho que se deixava convencer a emprestar dinheiro a péssimos negócios.

A EUTANÁSIA FARÁ DIMINUIR O DESEMPREGO?
António Costa disse que o abandono escolar aumentou porque o desemprego juvenil diminuiu. Faz sentido. Historicamente, a altura em que houve menos crianças na escola coincidiu com o pleno emprego infantil.

Por outro lado, se calhar os jovens deixam de ir à escola, não para ir trabalhar, mas para não apanharem chuva. São muito comodistas. Seja como for, este argumento faz-me desconfiar da discussão que aí vem sobre a eutanásia. É possível que a aprovação da morte assistida seja outro estratagema para diminuir o desemprego.

QUE O ESTADO NOS CARREGUE ÀS COSTAS
O Parlamento prepara-se para legislar sobre o peso das mochilas das crianças. Até que enfim! Com esse problema resolvido, só falta fazer uma lei para obrigar os pequenotes a comerem a sopa toda e outra para irem agasalhados para a escola. Obrigado, Estado, por aliviares não só o peso das mochilas, mas também o peso da paternidade.

(Para ser justo, as crianças cá de casa não têm esse problema. Andam no ensino público e esta é uma questão que afecta mais as escolas particulares. Com tantos professores a faltar, é raro terem que levar os livros todos. O mais velho está sem professora de Inglês desde o primeiro período. Na escola diz-se que a senhora está de baixa porque tem fobia à chuva. É, obviamente, uma daquelas mentiras das crianças. Ela também falta quando faz sol.)
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