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Piloto morre em corrida de motos no Estoril

José Diogo Quintela

Lojas históricas com taxímetro

Desde Freitas que não se assistia a passagem tão limpa do salazarismo ao socialismo.

José Diogo Quintela 30 de Abril de 2016 às 00:30
Ontem houve manifestações de taxistas. Em Lisboa, os táxis demoraram 5 horas a ir da Expo até São Bento. Parece muito tempo, mas para quem já ouviu histórias de turistas que são levados do Aeroporto ao Marquês de Pombal via pontes Vasco da Gama e 25 de Abril, acaba por não ser nada de especial.

Numa altura em que protestam contra a concorrência da Uber, talvez não tenha sido boa ideia lembrar às pessoas que, de vez em quando, os taxistas aldrabam no caminho. Aliás, é possível que o percurso de ontem tenha passado pela Estrada de Damasco, já que se assistiu a uma conversão ao nível da de São Paulo. Durante anos, sempre se disse que os taxistas eram saudosistas. De repente, tornaram-se socialistas, a pedir ajuda do Estado para defender a corporação. Desde que Freitas do Amaral foi de candidato presidencial fascista a camarada do Governo PS que não se assistia a uma passagem tão limpa do salazarismo ao socialismo.

Aparentemente, a Uber actua ilegalmente em Portugal. A ANTRAL ganhou uma acção contra a Uber Technologies Inc, com sede nos EUA. Sucede que a Uber que actua em Portugal é a Uber BV, sediada na Holanda. Essa não está impedida de actuar. Ou seja, tendo de decidir entre a empresa americana e a holandesa, na dúvida os taxistas escolheram a que está mais longe. É a força do hábito.

A meio da tarde começaram os ataques a motoristas da Uber. Bater num motorista da Uber é uma dupla agressão: não só aleija, como também marca a cara e amarrota a roupa, o que pode fazer com que o próximo passageiro dê menos estrelas, por causa do aprumo e asseio. Os responsáveis tinham pedido calma aos taxistas, para que não reagissem a ‘provocações’, mas foi em vão. O que é esquisito: por regra os taxistas evitam ao máximo dar troco.

À mesma hora que os motoristas da Uber recebiam palmadas no lombo, os representantes dos taxistas recebiam palmadinhas nas costas nas Câmaras de Lisboa e do Porto e na AR. Mas não foram recebidos por quem interessa: Diogo Lacerda Machado, o amigo de António Costa. Uma conversa com o negociador-mor é que ajudava os taxistas, nomeadamente através de novo pacote de milhões oferecido pelo Governo. Lacerda Machado participou na compra da VEM pela TAP, o que significa que tem experiência em negócios em que o Estado gasta inutilmente dinheiro na área dos transportes. Por outro lado, os taxistas podem desconfiar: é alguém que prestava serviços de consultor sem contrato de trabalho, fazendo concorrência desleal aos outros consultores.

A resolução do problema é óbvia: desligar a internet e legislar para que cada português seja obrigado a viajar duas vezes por dia num táxi. E, claro, proibir melhorias de serviço e preços nos táxis. Seria desvirtuar o que na prática são lojas históricas com rodas.

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E mais: Bazar José Diogo Quintela, Lda, desde 1977
Na semana passada tive uma gripe muito forte. No meio do queixume, a minha mulher disse, algo acintosamente, que se eu estava a sofrer assim tanto, devia ponderar a eutanásia. Temo pelo futuro.

Daí ter decidido desvincular-me da humanidade e registar-me como loja histórica. Hoje em dia há menos burocracia para acabar com um velhinho do que com um negócio inviável. O fecho de uma loja que ninguém frequenta necessita de pareceres de comissões, grupos de trabalho e licenças especiais. Já a eutanásia vai ter um simplex.

Já agora: Heróis e heroínas do mar
A um mês do Europeu de futebol, os jogadores já estão ansiosos: "Será que consigo decorar a nova versão do hino nacional aprovada pelo Bloco de Esquerda?"

É que se o cartão de cidadão simboliza alguma coisa, o hino simboliza muito mais. A Constituição diz que os símbolos nacionais são a "bandeira e o hino". Não refere "o documento de identificação com dados diversos, incluindo a altura". Quando a Rosa Mota ganhou em Seul, os portugueses emocionaram-se com o hino, mas é pouco provável que alguém se tenha posto de pé e agarrado o BI junto ao coração.
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