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Piloto morre em corrida de motos no Estoril

José Diogo Quintela

Não há festa como esta

A uma festa dos anos 80 vai-se vestido de Maradona. A uma da Revolução Russa vai-se de esfomeado.

José Diogo Quintela 29 de Abril de 2017 às 00:30
Se não fosse o PCP, a única fonte de informação sobre a Venezuela seriam as notícias relatadas por milhares de jornalistas. Felizmente, os comunistas elucidam-nos, contrapondo aos factos a sua interpretação não enviesada. Por exemplo: Nicólas Maduro está sempre de fato de treino, como quem vai ao Domingo passear a um centro comercial. Se na Venezuela ainda há centros comerciais e Domingos, é porque está tudo bem.

O que se passa na Venezuela não é uma terrível crise. É, sim, uma linda homenagem. Trata-se da celebração do centenário da Revolução Russa. Do mesmo modo que há festas dos anos 80, esta é uma festa do ano 1917. A uma festa dos anos 80 vai-se vestido de Maradona ou daquela moça do Flashdance que dança muito bem. A uma festa da Revolução Russa vai-se de esfomeado ou com três tiros nas costas.
Daí a oposição à ingerência externa. A ingerência externa são os penetras que estragam a festa. O PCP não gosta de penetras nas suas festas. (Nem de homossexuais).

A Venezuela anunciou a saída da OEA. Faz sentido. A Venezuela não precisa da Organização de Estados Americanos, pois faz parte dos Estados Americanos Organizadíssimos. Basta ver o bem organizadas que são as filas à porta dos supermercados. É preciso talento para coordenar filas com milhares de participantes. Parecem coreografias norte-coreanas. A disciplina com que os venezuelanos aguentam tantas horas de pé é ainda mais impressionante se virmos que são pessoas que têm fome. Ora, se eu às vezes desligo o computador logo ao meio-dia e meia, porque com a falta de açúcar já não me consigo concentrar, o que dizer destes venezuelanos, que se mantêm focados, apesar de não comerem há dias?

Entretanto, desde que começaram os protestos já morreram 28 manifestantes. O que significa que os turistas da desgraça alheia têm de começar a planear já a viagem à Venezuela. Os turistas da desgraça alheia são os ocidentais que diziam que só valia a pena visitar Cuba enquanto Fidel Castro fosse vivo. Depois da morte do tirano a pitoresca penúria cubana ia-se tornar desinteressante, estragada pela democracia. Para esses viajantes, há agora a Venezuela. Se querem aproveitar para ver carestia autêntica, não adulterada, têm de lá ir antes da morte. Não do ditador, que lá são substituídos, mas sim do povo todo. A este ritmo (tipicamente sul-americano, parece-me ser rumba), o povo não dura muito.

A pobreza very typical só tem graça com pobres a desfrutarem dela. De que serve ao turista visitar um hospital sem medicamentos, se não houver pessoas a passar mal por causa disso? É ir agora, enquanto ainda sobram venezuelanos miseráveis com quem tirar selfies. Mas, antes de tirarem as fotografias abanem-se com um leque, para ajudar o gás lacrimogéneo a dissipar-se.


A ingerência informa

Quando uma pessoa dá a sua opinião sobre a Venezuela, o PCP acusa-a de ingerência, uma acusação que é, justamente, uma ingerência na consciência dessa pessoa. Este meu reparo é, também, uma ingerência na política interna do PCP. Por causa deste comentário, noutros tempos, noutros fusos horários, os comunistas fariam agora uma ingerência no meu sistema respiratório. Todavia, nesta matrioska de ingerências, nenhuma é maior do que a ingerência que a realidade pratica no comunismo em geral. Os factos têm a tendência maçadora de estragar a ficção comunista.

Os extremos tocam-se no banho

Ao ver como a extrema-esquerda anuncia que nunca votaria em Macron, bate uma nostalgia dos anos 30 do século XX, quando a Alemanha e a URSS assinaram um pacto de não agressão. Só não dizem que votariam Le Pen porque seria exagero, como Estaline fazer a saudação romana. É o pacto Louçãtov – Le Pentrop.

O cliché diz que os extremos se tocam. Os extremos protestam, garantem que não. Mas todos já percebemos que sim, na intimidade tocam-se. Podem não se tocar em público, mas é óbvio que os extremos se tocam no banho.

A outra vida

A propósito dos recentes ataques de cães, Rita Silva, da Animal, disse sobre Zico, o cão amnistiado depois de ter morto uma criança, em 2013: "Foi uma tragédia (…) mas nada poderíamos fazer para trazer a outra vida de volta. Felizmente, a juíza percebeu que tirar outra vida não ia ajudar".

A minha mulher chocou-se com a equivalência entre a vida de um cão e a outra vida, de uma criança. Tive de lhe lembrar que temos ambos cá em casa e: i) as crianças não vão buscar a bola, o cão vai; ii) as crianças espalham migalhas, o cão não; iii) as crianças têm más notas por falta de estudo, o cão aprende truques giros. A equivalência até é simpática para as crianças. Aliás, estou convencido que animais e algumas pessoas são cada vez mais iguais. As declarações de Rita Silva, por exemplo, parecem feitas por um robalo.
José Diogo Quintela Opinião
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