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José Diogo Quintela

Novíssimas Cartas Portuguesas

Estar tão perto ajudava a perceber se ela queria o beijo ou estava a ter um AVC.

José Diogo Quintela 25 de Novembro de 2017 às 00:30
Quase 350 anos depois da publicação das 'Cartas Portuguesas', eis uma nova versão desse testemunho pungente de amor não correspondido que são as cartas de Soror Mariana Alcoforado para o Conde de Saint-Léger. Sim, na sequência do envio de missivas amorosas, temos novamente um compatriota enxovalhado por estrangeiros.

Desta feita, o protagonista da dor de corno epistolar é Bruno Maçães, que viu revelado o teor das mensagens íntimas trocadas com uma jornalista americana. A nova obra não é constituída por cinco cartas lancinantes, mas sim por várias SMS marotas, assim como por uma fotografia do membro viril de Maçães, que o leitor não chega a ver.

Essa é, aliás, uma das complexidades do caso. Enquanto a leitura das cartas permite concluir que Soror Mariana estava perdidamente apaixonada pelo nobre francês, sem acesso ao elemento pictórico de Maçães faltam dados para uma habilitada análise semiótica da correspondência. Estaria Maçães hirto, pronto para se entregar? Ou murcho, afectado pela tão portuguesa saudade? Nunca saberemos.

O que sabemos é que, embora a história de amor não correspondido seja parecida, a forma como é contada é distinta. Onde Alcoforado precisa de cinco cartas para suplicar atenção, a Maçães basta um mail: 'Why did you block me?' Talvez a dor seja mais intensa em Soror. O que se compreende: afinal, a freira expôs-se muito mais ao francês do que Maçães à americana. O que é o pénis perante uma alma escarrapachada? A alma não tem cuecas para onde se possa recolher.

Infelizmente, o país preocupa-se menos com teoria literária e mais com baixa política, de modo que em vez de literatura comparada, tivemos escândalo na comunicação social. Como a maçã na cabeça, também a cabeça de Maçães revelou gravidade. Logo surgiram acusações de assédio sexual. Que, numa sociedade que pugna pela igualdade entre sexos, são deveras machistas. Se Bruna Maçães, em conversa online com um homem, o julgasse interessado e lhe enviasse uma foto não solicitada dos seios, que ele denunciaria para fazer pouco dela nas redes sociais, estaríamos agora a falar do homem que a ludibriou e humilhou sexualmente.

Dito isto, a questão que importa é esta: a que altura de uma troca de mensagens em que nunca se fala de pénis deve um homem concluir: 'bom, ela deseja vislumbrar o meu pénis agora'? Quando eu namorava, a dúvida era se a rapariga queria ser beijada. Mas aí havia uma série de pistas que a proximidade física propiciava: lábios entreabertos, olhos semicerrados, cabeça inclinada, falar murmurado e a arfar. Estar tão perto ajudava a perceber se ela queria o beijo ou estava a ter um AVC. Agora, fotos do pénis é diferente. Com o ciberespaço no meio não dá para avaliar inclinações do pescoço. E, ao contrário do beijo, se a resposta a um pénis são olhos semicerrados, é mau sinal.

Em busca do tempo congelado
Esta semana vimos duas formas canhestras de descongelar. Primeiro foi Bruno Maçães a tentar quebrar o gelo com o pénis. Depois foi o Governo, que prometeu descongelar salários, mas manter as carreiras frias. No fundo, os professores estão num daqueles microondas que aquece a sopa em cima, mas deixa o resto frio.
António Costa é como uma alternadeira: aquece o cliente até certo ponto, mas antes que ele ferva, desiste. A filosofia do alterne é distrair, não é fundir. Se o cliente quer calor à séria, tem de ser lá fora. Mário Nogueira percebeu, por isso é que já veio para a rua.

O casal de luditas Sócrates e Fava Rica
Sofia Fava, ex-mulher de José Sócrates, disse ao MP que o dinheiro que recebia de Carlos Santos Silva era o salário por serviços de engenharia a uma das empresas dele. Os trabalhos realizados eram entregues em CD-ROM ou em papel, de maneira que não há registo de nada. Se ao menos tivessem ido por e- -mail… Mas Fava não trabalha com e-mail. Da mesma forma que Sócrates não aprecia bancos, muito menos homebanking. É um paradoxo curioso: ambos são engenheiros, mas recusam as ferramentas da modernidade. São engenheiros amish.

Foi ao desprezares o 25 de Novembro que te conheci 
A Esquerda boicotou a celebração do 25 de Novembro e isso veio nos jornais. O que prova que não é preciso uma celebração especial. É celebração suficiente o facto de haver vários jornais que noticiam livremente a realidade. Além de haver um Parlamento em que deputados agem segundo a sua consciência, como agora. Só é possível devido ao 25 de Novembro, uma data que se celebra todos os dias em que um Manuel Tiago ou uma das Mortáguas não manda prender ninguém.
Se os comunistas celebrassem o 25 de Novembro era sinal que tinham ganho. Nesse caso, da mesma forma que a URSS não celebrava a Revolução de Fevereiro, o que não celebraríamos era o 25 de Abril.
Estejamos, por isso, quietos. Esfregar o 25 de Novembro na cara dos radicais é mau ganhar da Democracia.
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