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Piloto morre em corrida de motos no Estoril

José Diogo Quintela

Paradoxos nossos

O português prefere estar em andamento, mesmo que por um caminho mais longo, do que parado num sinal.

José Diogo Quintela 7 de Outubro de 2017 às 00:30
Segundo a wikipédia, os animais mais rápidos do mundo são: 1) Falcão peregrino; 2) Peixe-vela; 3) Chita; 4) Condutor português a buzinar para que o carro da frente arranque, depois de mudar o semáforo; 5) Gnu.

A lista não é totalmente rigorosa. O condutor português pode ser ainda mais rápido que a chita (se o condutor português estiver mesmo com muita pressa e a chita não tiver assim tanta fome).

Em média, o cronómetro marca 0,012 segundos entre cair o verde e os carros que estão atrás do primeiro da fila começarem a apitar.

O condutor português prefere estar em andamento, mesmo que por um caminho mais longo, do que estar parado num sinal. Vai da Baixa a Alfragide passando por Coimbra, se lhe garantirem que não apanha semáforos.

Ninguém diria que se vive um inverno demográfico em Portugal, tal a quantidade de carros que andam a abrir, como se transportassem grávidas a quem tivesse acabado de rebentar as águas.

Existe apenas uma situação em que o condutor português não tem pressa: é quando vai a sair com o carro e percebe que há alguém à espera do lugar. Assim que repara que desejam o seu estacionamento, todo ele é placidez. A pressa da pessoa que quer estacionar sobrepõe-se à própria pressa, anulando-a e transformando-a em vagar.

Antes de entrar no carro, vai ver se a mala está bem fechada. Dá pequenos chutos em todos os pneus, para verificar a pressão. Entra no carro. Põe o cinto. Chega o banco para a frente. Reclina as costas. Ajeita o retrovisor. Coloca os óculos escuros. Liga o rádio. Seleciona a sua estação predilecta. Não está nenhuma música gira, desliga o rádio.

Emparelha o telemóvel por Bluetooth. Abre o Spotify. Retira os óculos escuros. Bafeja as lentes. Limpa-as. Recoloca os óculos escuros. Retira-os novamente. Bafeja novamente as lentes. Limpa-as novamente. Recoloca novamente os óculos. Abre a janela. Fecha a janela. Liga o ar condicionado. Acciona o limpa pára-brisas da frente. Depois, o de trás.

Entretanto, quem espera tem a ansiedade a bater ferros. Principalmente desde que o dono do lugar ligou o carro e engatou a marcha-atrás, dando a falsa esperança de ir sair imediatamente. Como é óbvio, não se atreve a mostrar o mínimo sinal de impaciência, não vá o dono do lugar lembrar-se de fazer tudo outra vez, só que mais devagar.

Como estupendo observador de paradoxos (um paradoxo em si, uma vez que sou estrábico e míope), só encontro paralelo noutra contradição nossa.

A praticada por pessoas que tiram fotografias à beira das falésias. O objectivo de quem o faz é tirar a fotografia mais original possível. Por isso é que às vezes os modelos caem.

Então, depois de tentar encenar a fotografia mais original possível, o fotógrafo não aproveita a oportunidade única de fotografar o modelo no fundo da arriba. Absurdo.

Despassosito   
Pedro Passos Coelho ainda esperou que o ISIS, sempre tão lesto a reivindicar a autoria de qualquer tragédia, surgisse a assumir a responsabilidade das escolhas autárquicas do PSD. Como não apareceu ninguém, lá teve Passos Coelho de dar a cara.

Agora resta esperar para ver quem se vai candidatar à liderança do partido. Neste momento fala-se em Luís Montenegro, Paulo Rangel, Rui Rio e, tcharan!, André Ventura. Pensando melhor, se calhar o ISIS está só à espera de ver o que acontece para, então sim, reivindicar a autoria da desgraça.

Gentrificação afasta comunistas
Jerónimo de Sousa avisou os cidadãos dos municípios que se atreveram a apear autarcas  comunistas que ainda vão ter saudades da CDU. Talvez tenha razão. Embora ‘nostalgia comunista’ pareça um oxímoro, tipo ‘saudades da enxaqueca’, há quem vá sentir falta do seu Presidente Camarada.

O PCP foi vítima da gentrificação artística, que é o que acontece quando artistas internacionais vêm para Lisboa: empurram artistas nacionais para outro sítio. Foi o que aconteceu a Inês de Medeiros, agora que chegou a Madonna.

O povo unido já não está convencido
57 anos depois da fuga de Peniche, os comunistas voltam a abandonar a cidade. Desta vez, porém, saem contrariados e sem vontade de regozijar.

Pelo valor simbólico, é um dos municípios que custa mais perder. Mas também Almada, Barreiro e uma série de outras câmaras alentejanas. Os comunistas não perdiam tanto território desde a Operação Barbarossa.

A culpa é do politicamente correcto. Durante anos ouvimos que ‘os comunistas são muito bons na gestão autárquica’. Que é o mesmo tipo de cliché que ‘os chineses trabalham muito’, ‘os árabes são óptimos vendedores’ ou ‘os negros têm muito jeito para atletismo’.

Hoje em dia, estas observações são muito mal vistas. É natural que, mesmo na privacidade da cabine de voto, as pessoas não queiram contribuir para a perpetuação de estereótipos.
José Diogo Quintela opinião
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