Barra Cofina

Correio da Manhã

Colunistas
3
Piloto morre em corrida de motos no Estoril

Leonor Pinhão

Virados do avesso

O pior que pode acontecer ao Benfica é adiantar-se no marcador. Foi assim com o CSKA e no Bessa.

Leonor Pinhão 23 de Setembro de 2017 às 00:30
O Benfica, tetracampeão nacional, anda virado do avesso. Alguma vez tinha de acontecer, é certo, porque estes transes da bola não acontecem só aos outros. No entanto, quatro anos é muito tempo e quatro anos de belos sucessos desabituaram, inevitavelmente, os adeptos do Benfica de experimentar o travo amargo da inoperância formal que a sua equipa vem exibindo, sem rodeios, em casa e fora de casa.

A soma de resultados medíocres, o momento periclitante de alguns setores da equipa e os arranques sem mácula dos dois principais adversários internos viraram do avesso o estatuto do campeão e a relação de confiança com a vasta multidão de público afeto.

De tal modo tudo é ao contrário do que devia ser, de tal modo vive o Benfica de pernas para o ar que o simples facto – simplicíssimo, na realidade – de ter marcado um golo cedo no jogo com o Sp. Braga na Taça da Liga despertou na assistência do Estádio da Luz um estado de angústia que, francamente, não se sabe se vem dos relvado para a bancada ou se, pelo contrário, parte da bancada para o teatro das operações.

O caso é bicudo. Obedece a um comportamento padrão de foros surreais e que se resume ao facto de o pior que pode acontecer a este Benfica é adiantar-se no marcador. Assim aconteceu no jogo com o CSKA e depois foi o que se viu: as infames reviravoltas dos resultados mercê de um misterioso abandono do foco na ação e de uma notória incapacidade de gerir a vantagem e, mais preocupante ainda, de a dilatar para sossego das suas gentes.

Só este bizarro, bizarro porque repetitivo, comportamento da equipa de Rui Vitória explica a ansiedade que se viveu na noite de quarta-feira na Luz quando Jiménez apontou, com um remate impecável aos 10 minutos da primeira parte, o golo que adiantou o Benfica no marcador no jogo inaugural da fase de grupos da tão estimada Taça da Liga. O público, naturalmente, ergueu-se dos assentos para festejar o golo do mexicano mas quando todos se voltaram a sentar o sentimento era unânime e tudo menos otimista: agora é que vão ser elas! E foram, outra vez.

Tal como o fizeram CSKA e Boavista, também o Sp. Braga encontrou alento no seu suposto desalento e, trocando a bola com grande à-vontade, foi-se aproximando com perigo da baliza do Benfica até chegar ao empate. É um facto que não chegou à vitória como moscovitas e boavisteiros chegaram, mas chegou para o susto e para confirmar a teoria de que o Benfica desliga, e desliga sempre que se vê em vantagem tangencial. Ora é a isto, precisamente, que se chama andar virado do avesso. Até quando?

Visão futurista da comunicação
Os puristas que representam ‘os perigos no futebol português’
Para já é apenas ficção científica mas um dia veremos um qualquer espaço informativo de uma qualquer estação de TV atribuir o estatuto de comentadores ilustrados no tema ‘os perigos no futebol português’ aos especialistas que pelas suas práticas, pelos seus graus académicos e pelos seus currículos estarão em condições de explicar à multidão o que é isso da permeabilidade do desporto-rei à pequena, à média e à grande delinquência e como é isso de combater os que afligem o bom nome da modalidade com exotismos tribais e generosidades ignóbeis.

Será este o futuro brilhante que nos aguarda: o império do ‘quem sabe, sabe’, as vozes autorizadas, o respeito do público, o explodir das audiências. Haverá também quem venha a considerar que o abjecionismo tomou conta, de uma vez por todas, da tropa-fandanga da bola. São estes puristas de meia-tigela, estes descrentes no progresso que representam ‘os perigos no futebol português’. Felizmente não passam de uma minoria.
Leonor Pinhão Opinião
Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)