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Luciano Amaral

600 anos depois

Seiscentos anos depois de Ceuta, onde está a energia nacional que levou Portugal até lá?

Luciano Amaral 24 de Agosto de 2015 às 00:30
Passaram na sexta-feira, 21 de Agosto, 600 anos desde que o rei português João I e os seus filhos, a ‘ínclita geração’ dos infantes D. Duarte, D. Pedro e D. Henrique, conquistaram a cidade marroquina de Ceuta. Em si, a conquista poderia ter sido como tantas outras que os europeus costumavam fazer no norte de África ou os norte-africanos no sul da Europa, mas daquela vez foi diferente: vinte anos depois, uma expedição enviada pelo infante D. Henrique passou o cabo Bojador e abriu as costas de África à exploração; passadas apenas umas décadas, os navegadores portugueses tinham chegado à Índia e ao Brasil (e Colombo à América), criando o primeiro verdadeiro império planetário da história. Por isso, a conquista de Ceuta, em 1415, é considerada o primeiro momento da expansão ultramarina portuguesa – e, logo, europeia.

É evidente que o rei João e os infantes não tinham a menor ideia do que estavam a começar. Para eles, Ceuta era a continuação da luta contra o islão, a partir da qual Portugal havia sido criado. Foram os acasos da exploração que os fizeram inaugurar uma coisa absolutamente nova. Daí para a frente, Portugal não voltaria a ser o mesmo. Na realidade, o mundo não voltaria a ser o mesmo. Para Portugal, foi o início de um modo de vida de que nunca se desabituou completamente e que pode ser resumido na frase de uso recente ‘viver acima das possibilidades’: as especiarias, o ouro do Brasil e até as remessas de emigrantes foram sua consequência. Foi por causa do império que Portugal se envolveu na última guerra da sua história, a Guerra Colonial, que acabou em 1975, e foi para compensar o fim do império que aderiu à União Europeia.

A conquista de Ceuta foi um acontecimento tão importante para a história de Portugal e do mundo que não se percebe a modéstia com que está a ser assinalada. Uns livros de bons historiadores, geralmente por auto-recriação, e uma ou outra exposição, destoam do deserto geral, onde, como refere um desses historiadores, João Paulo Oliveira Costa, sobretudo o Estado prima pela ausência. Não saber cultivar um momento como este revela um desamor pelo país que parece ser um bom sinal dos tempos. Seiscentos anos depois de Ceuta, onde está a energia nacional que levou Portugal até lá?
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