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Luciano Amaral

A Syriza no bolo

Na Grécia, o PS local quase desapareceu. Agora foi o PSD local a entrar em declínio.

Luciano Amaral 26 de Janeiro de 2015 às 00:30

Confirmou-se a vitória do Syriza nas eleições da Grécia, ignorando-se apenas, à hora a que escrevo, se é uma vitória com maioria absoluta ou não. Foi a primeira vitória de um partido de esquerda radical na história da Europa. Por si só, isto já é suficientemente importante. Cheira a ultrapassagem de tabu.

Os actuais sistemas políticos europeus foram construídos contra os partidos comunistas ou da esquerda radical. A fim de os excluir, tudo foi perdoado aos partidos do centro: a corrupção, a incompetência, o troca-tintismo. A vitória do Syriza significa que o papão do comunismo (ou algo do género) não bastou para perdoar o resto.

Muita gente avisou que a política do "tudo deve ser feito para salvar o euro" resultaria, em muitos países, na destruição do modo de vida democrático que eles construíram ao longo de décadas (por muitos defeitos que esse modo de vida tivesse). Mas os partidos centrais substituíram o papão do comunismo pelo da saída do euro, acreditando que isso bastaria para sobreviverem. Afinal, destruíram-se a si próprios. Na Grécia, o PS local quase desapareceu. Agora foi a vez de o PSD local sentir o declínio.

Dir-se-á que o Syriza apareceu na campanha muito moderado em relação à saída do euro. Sim, mas pareceu mais estratégia para captar eleitorado central do que outra coisa qualquer. Para além de que o seu programa eleitoral é a negação do "tudo deve ser feito para salvar o euro". O Syriza quer acabar com a austeridade, aumentando a despesa e tornando o equilíbrio orçamental inviável. Só há duas alternativas: ou o Syriza não cumpre o programa e transforma-se num partido indistinguível do PASOK e da Nova Democracia; ou então cumpre, e a saída do euro passa a ser muito provável. Os eleitores gregos quiseram experimentar qualquer coisa indo além dos partidos tradicionais. Eles não foram ao engano.

É uma espécie de jogo do ‘quem se desvia primeiro’.


A União Europeia acredita que o pânico da saída do euro levará o Syriza à moderação, mas a verdade é que a própria União Europeia está em pânico com a possibilidade de o Syriza cumprir. Seria a ultrapassagem de um tabu: o de que nenhum país abandona o euro.

A indissolubilidade do euro é um símbolo inerente à sua existência. Saindo um país, é mais fácil outros fazerem o mesmo.

Vai ser interessante.

Syriza Grécia PS PSD Nova Democracia União Europeia política
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