Barra Medialivre

Correio da Manhã

Colunistas
6
Piloto morre em corrida de motos no Estoril

Luciano Amaral

Demasiado grandes para sobreviverem

Os gestores bancários sentem-se à vontade para enterrar crédito em qualquer coisa.

Luciano Amaral 27 de Março de 2023 às 00:30
A semana passada acabou com outro pânico bancário, desta vez envolvendo o Deutsche Bank (o maior banco alemão e o 22.º mundial) e as rituais garantias de segurança das autoridades (no caso, o chanceler Scholz). Os próximos dias mostrarão se o pânico continua ou não, mas vale a pena olhar para a forma como os estados lidaram com os casos dos bancos americanos Silicon Valley Bank (SVB), Signature e First Republic (FR), todos de média dimensão, e do Credit Suisse (CS), o segundo maior suíço.

No caso dos EUA, SVB e Signature faliram, enquanto o FR treme, mas o pânico apenas foi controlado quando a ministra das Finanças, Janet Yellen, garantiu todos os seus depósitos. E perante a continuação da incerteza, ainda sentiu necessidade de dizer que considerava garantir todos os depósitos do país! O valor desafia a compreensão: 19 biliões de dólares, mais ou menos o tamanho da economia dos EUA e 10 vezes o da portuguesa. Na Suíça, o CS foi comprado pelo, ou fundiu-se com o (as versões variam), UBS, mas uma garantia pública foi dada a este. Isto conduz a uma conclusão: nos países ocidentais, desde a crise de 2008, a banca deixou de ser uma atividade privada para passar a ser uma atividade privada com garantia pública. O que levanta várias questões. Os bancos estão a perder o papel de filtro daquilo que vale mesmo a pena financiar. Os gestores bancários sentem-se à vontade para enterrar crédito em qualquer coisa, pois o salvífico contribuinte sempre aparecerá caso a coisa corra mal. Uma pessoa pergunta-se se as bolhas imobiliárias por esse mundo fora (incluindo Portugal) não têm que ver com isto. No essencial, o risco desapareceu. Ora, se desapareceu, a retribuição remuneratória de quem lidera e trabalha na banca não pode ser a mesma. Os funcionários bancários transformaram-se em funcionários públicos disfarçados de génios da finança.

As autoridades ocidentais têm de decidir o que fazer com estes mostrengos: ou reformá-los para voltar a fazer da banca a atividade privada prudente que já foi, com as vantagens e os inconvenientes próprios do risco, ou assumir que são serviços públicos, com os constrangimentos próprios do setor. Ter as vantagens do privado e do público ao mesmo tempo é que não dá. Ou então, a repetição de crises bancárias está garantida.
Deutsche Bank Scholz Silicon Valley Bank Credit Suisse SVB Signature FR First Republic EUA banca
Ver comentários
C-Studio