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Luciano Amaral

Esquerda e o poder

Num regime como o nosso, o PCP não é nada se não for um partido de protesto.

Luciano Amaral 2 de Novembro de 2015 às 00:30
A esquerda (ou, pelo menos, uma parte) está cheia de pressa de chegar ao poder. Para ela, nomear um governo de partidos que ganharam as eleições é ‘perda de tempo’ e esperar pelo programa desse governo é desnecessário, porque, independentemente do programa, o Governo ‘vai cair’. Será a excitação da novidade, será o facto de algumas pessoas serem neófitas nisto, mas as democracias são assim: regimes lentos, onde se discute muito e onde se têm de dar uma série de passos até chegar a uma solução.

Nomear este Governo não é uma mera formalidade. É, desde logo, reconhecer a sua vitória eleitoral. É também dar-lhe a oportunidade para mostrar ao que vem e é dar aos membros do parlamento a oportunidade para o avaliar. Por tudo isto é que, no passado, se permitiram governos minoritários, os quais, depois, foram pescando apoios a um lado ou ao outro. O que a esquerda diz é que, hoje, há uma novidade, que é uma maioria de pessoas contra o Governo.

Peço desculpa, mas isso não é novidade nenhuma: sempre que houve um governo minoritário, houve uma maioria de pessoas contra esse governo. Novidade seria que a maioria contra o governo fosse ela própria uma maioria de governo funcional. E é isso que ainda está por provar. No passado, houve muitas ‘maiorias de esquerda’, só que nunca foram funcionais, porque os partidos que as formavam nunca quiseram governar juntos. Dizem os partidos da actual ‘maioria de esquerda’ que querem. Dado que no passado nunca se entenderam, vão ter de o demonstrar.

Até agora, os sinais são mistos: o BE parece tão ansioso quanto o PS para lá chegar, aparecendo assim como uma espécie de CDS do PS, pragmático e pronto a viabilizar soluções de governo. O PCP é que não parece tão à-vontade. Já todos percebemos que o BE não se importaria de ser o PS no lugar do PS, o grande partido de esquerda num regime como o nosso. Demorou a lá chegar; por causa disso, desfez-se de algumas das suas melhores promessas; mas parece que, enfim, chegou.

Só que o PCP é outra coisa: num regime como o nosso, o PCP não é nada se não for um partido de protesto. Daí que agora ponha todos os travões na carroça da ‘maioria de esquerda’. Ainda estamos para ver se esse magnífico amanhã cantará e, cantando, até quando.
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