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Luciano Amaral

Interpretações

Vamos a caminho de uma década de crise, sem que se tenha ido muito além de manter o cateter a pingar.

Luciano Amaral 1 de Setembro de 2014 às 00:30

O santo Draghi lá apareceu outra vez a salvar o euro de mais um pânico. Perante números que por aí surgiram e mostram já a própria Alemanha a entrar em terreno de crescimento económico negativo, o presidente do Banco Central Europeu veio dizer que usaria "todos os instrumentos disponíveis" para animar as economias do euro com estímulos monetários. O famoso ‘efeito Draghi’ é muito interessante: Draghi, na realidade, faz pouco; passa é a vida a anunciar que fará tudo. Estamos perante um óbvio talento político.

O que se voltou a ver agora, quando acrescentou que a política monetária não basta e que os governos têm de ser mais "flexíveis" nas políticas orçamentais. Imensa gente disse logo que ele tinha abandonado o barco da austeridade. Mas o ministro das Finanças alemão diz que Draghi está a ser "mal interpretado". Na realidade, Draghi não disse nem sim nem sopas. Mas a mera menção do tema deu origem a um debate e a outro ‘efeito Draghi’.

Vamos a caminho de uma década de crise (começou em 2007), sem que se tenha ido muito além de manter o cateter do soro fisiológico a pingar. Não admira que a coerência das políticas europeias comece a deslaçar no próprio centro onde se decidem. O governo francês vive em plena esquizofrenia: enquanto aposta na sua versão de austeridade socialista, despede ministros contrários à austeridade ‘alemã’, mas implora à Comissão Europeia para que anime a sua economia. A Itália, como é claro, quer acabar com a austeridade já.

Acabar com a austeridade, porém, nunca passará de um expediente que aliviará problemas imediatos mas não resolverá nenhum problema de fundo. Como, aliás, qualquer dos ‘efeitos Draghi’ – tanto o "monetário" quanto o "orçamental". O principal problema de fundo continuará a ser o da competitividade relativa de cada uma das economias do euro, e um alívio da austeridade não fará senão agravar a competitividade daquelas que já são pouco competitivas, da França para baixo. Sob a anestesia do alívio, tudo continuará a piorar.

Enquanto isto não for enfrentado seriamente, o resto nunca passará, nas palavras de um grande europeu pretérito, de muito barulho para nada. 

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