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Luciano Amaral

Prisioneiro do euro

Costa persegue uma via inexistente entre a alegria na austeridade e a saída do euro.

Luciano Amaral 21 de Setembro de 2015 às 00:30
Os debates do PS com a restante esquerda costumam ser pouco interessantes. Tudo obedece a um ritual, que normalmente evolui da seguinte forma: PS, PCP e BE começam por se apresentar cheios de ‘consciência social’, sempre do lado dos ‘desprotegidos’ (às vezes o vocabulário varia, metendo ao barulho ‘trabalhadores’, ’povo’ ou outro termo mágico do género) e contra os ‘poderosos’. Parecem todos de acordo – afinal são todos de ‘esquerda’.

Mas depois a coisa fica azeda: o PS acusa o PCP e o BE de serem inconsequentes, por nunca quererem participar num governo (o que, diga-se, é verdade), enquanto o PCP e o BE acusam o PS de ‘pactuar com políticas de direita’ (o que também acaba por ser verdade, já que governar exige transigências).

No final, tanta concordância na defesa dos ‘desprotegidos’ resulta na impossibilidade de se entenderem e a ‘esquerda’ fica o alguidar de lacraus que sempre foi.

Nos últimos debates houve, porém, algo mais interessante. Tanto no debate com Jerónimo de Sousa como no debate com Catarina Martins, António Costa foi confrontado com o seu grande dilema. Todos eles, Costa, Sousa e Martins, denunciaram a ‘arquitectura do euro’ (como gostam de lhe chamar) enquanto grande responsável da crise em Portugal. Mas só Sousa e Martins admitiram vir a retirar Portugal da moeda única. E confrontaram Costa com isso. Por duas vezes, Costa teve de ouvir: ‘estamos de acordo, mas não vai à última consequência’. Sousa e Martins estavam implicitamente a dizer a Costa que, não o fazendo, o PS vai repetir, no poder, a política de austeridade da direita.

É provável que o PCP e o BE tenham razão: Costa persegue uma via intermédia inexistente entre a alegria na austeridade de PSD e CDS e a saída do euro. Esse foi o programa que serviu a Hollande, em França, e a Renzi, na Itália, para serem eleitos e veja-se onde estão. Estão com o SPD, na Alemanha, um grande partidário da austeridade em Portugal, e até com o Syriza, um grande partidário da austeridade na Grécia.

É este o dilema do Partido Socialista e de todos os partidos de esquerda moderada dos países do euro: a ‘arquitectura do euro’ praticamente proíbe as suas políticas. E vendo bem, o problema não é só deles, é de todos, já que não permite verdadeiras alternativas.
PS PCP BE Jerónimo de Sousa Catarina Martins António Costa PSD CDS França Itália Alemanha Grécia Syriza
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