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Luciano Amaral

Que terrorismo?

Este tipo de terror não implica a importação de jihadistas estrangeiros.

Luciano Amaral 18 de Julho de 2016 às 00:38
Os contornos exactos do ataque que Mohamed Lahouaiej Bouhlel lançou sobre uma multidão no Passeio dos Ingleses, em Nice, munido apenas de um camião frigorífico, ainda estão para ser entendidos. Aparentemente, Bouhlel não era conhecido pelo seu radicalismo ideológico, nem sequer pelo fervor na fé: não ia muito à mesquita e não tinha cumprido o último Ramadão. Era um pequeno delinquente, que frequentava ginásios de kickboxing e bares de salsa, onde procurava companhias femininas. De acordo com o ministro do Interior francês, estaremos perante algo de semelhante a uma radicalização-relâmpago. Um psiquiatra tunisino que Bouhlel consultou há uns meses garante que ele tinha um perfil psicótico. Este perfil, junto com o catalisador da separação, foi talvez suficiente para Bouhlel se ter sentido atraído pelo "convite" feito pelo Estado Islâmico a todos os fiéis para que atacassem a Europa e os Estados Unidos durante o Ramadão. A ser verdade este quadro, o caso é especialmente grave, pois significa que existe uma parte da população europeia de origem muçulmana que se acha desenraizada e que está disposta a seguir as vagas instruções violentas dadas por uma organização radical. Este tipo de terrorismo dispensa planos de tipo quase militar, como o 11 de Setembro ou os ataques de Paris em Novembro do ano passado. Não existe uma célula que o enquadre nem uma organização que o suporte e os serviços secretos nada podem fazer contra ele. É um terrorismo que não implica a importação de jihadistas estrangeiros, especializados no combate: a jihad é interior e posta em execução quase sem preparação.

Este terrorismo não se distinguirá de uma revolta dos humilhados e ofendidos que se empilham nas periferias das cidades europeias. Não há bombas na Síria ou serviços secretos que os combatam. É a Europa diante dos monstros que ela própria criou.
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