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Luciano Amaral

Somos Charlie?

O ‘Charlie’ jamais se enganou quanto à origem do poder, para melhor saber gozar com ele.

Luciano Amaral 12 de Janeiro de 2015 às 00:30

Como em todas as homenagens planetárias em que o nosso mundo tem sido pródigo nos últimos tempos, há qualquer coisa ao mesmo tempo comovente e superficial na mobilização ‘Je suis Charlie’.

O ‘Charlie Hebdo’ não é um jornal queriducho, fofinho e consensual, que o mundo inteiro adore de forma espontânea. Pelo contrário, é um jornal feito de humor brutal e ofensivo, que nunca poupou ninguém.

A sua reputação foi construída, nas décadas de 60 e 70, a demolir o ‘capitalismo’, a ‘democracia’ e outras instituições ocidentais, incluindo o cristianismo.

Só que, hoje em dia, já ninguém liga a ofensas que tenham semelhantes coisas como objectos. Por isso, a fama mais recente do ‘Charlie Hebdo’ nasceu das presumíveis ‘ofensas’ ao Islão.

O ‘Charlie’ jamais se enganou quanto à origem do poder, para melhor saber gozar com ele. E também não se enganou quanto ao Islão em França, como se viu no dia 7 de Janeiro.

Isto significa que brandir o símbolo ‘Je suis Charlie’ sem discutir o islamismo radical não faz qualquer sentido. Coisa que se viu logo em França no dia imediato ao atentado, quando o sistema político francês excluiu a Frente Nacional da ‘marcha republicana’ contra o terrorismo. Isso não é, realmente, ‘ser Charlie’. Excluir Marine Le Pen da ‘unidade nacional’ é aceitar a chantagem feita por uma minoria de islamitas radicais sobre a sociedade francesa.

Incluir Marine Le Pen no consenso nacional não significaria aceitar a sua maneira de resolver o problema. Seria talvez até uma maneira de a enfraquecer. Exclui-la, pelo contrário, dá a ideia de que é ela a única com coragem para enfrentar o dito problema. Le Pen já vai, neste momento, à frente nas sondagens.

Os atentados terão ajudado a aumentar a sua popularidade. E esta exclusão também deverá dar um contributo positivo.

Falar de forma sanitizada sobre ‘ameaças à liberdade de expressão’ sem referir qual a ameaça concreta em causa é viver em estado de negação. Assim ganha quem não nega, embora proponha respostas detestáveis.

O medo pode destruir uma democracia. Seja o medo de enfrentar o terrorismo, seja o medo de enfrentar o racismo autoritário. Depois não se queixem.

Charlie Hebdo França Frente Nacional Marine Le Pen Le Pen política
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