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Luciano Amaral

Uma trumpa?

O fenómeno Trump é mais complicado do que a mera ridicularização que se vê por aí.

Luciano Amaral 23 de Maio de 2016 às 00:30
Donald Trump parece uma caricatura, mas os comentadores políticos europeus acentuam ainda mais essa caricatura do que merece. É que por cada posição lunática (construir um muro na fronteira com o México contra a imigração ilegal ou proibir a entrada de "todos" os muçulmanos nos EUA) apresenta dez muito acarinhadas por esses comentadores.

Alguns exemplos: aumentar o salário mínimo e os impostos para os ricos; um sistema de saúde próximo dos europeus; acabar com o comércio livre com a China e o México (por achar que os seus salários baixos roubam empregos nos EUA); também é genericamente a favor do casamento homossexual; já foi a favor do aborto, mas agora mudou, por receio de alienar alguns republicanos, mas mantém-se mais moderado do que a maior parte deles; e acha que George W. Bush devia pedir desculpa pela Guerra do Iraque. Trump defende muitas outras coisas, umas que agradam à esquerda, como estas, e outras à direita. Na realidade, as suas posições são uma espécie de bombardeamento de ideias transversais às famílias políticas tradicionais. E isso mostra que o fenómeno é mais complicado do que a mera ridicularização que se vê por aí.

Trump é sobretudo popular entre a classe média e a classe média baixa branca, um dos grupos sociais mais afectados pelo "dumping social" da China e a imigração da América do Sul. Para mais, num país cheio de estatutos especiais (dos negros, dos sul-americanos, dos asiáticos, dos gays...), este parece ser o último grupo genérico (isto é, sem estatuto especial). Trump corta a eito através das posições tradicionais e fala do que a classe política não quer falar. Daí resultam disparates incríveis. Mas isso só acontece porque certos temas são entregues de bandeja a este género de espécimes exóticos. Le Pen, em França, Beppe Grillo, em Itália, ou o Podemos, em Espanha, não são muito diferentes.
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