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Correio da Manhã

Colunistas
3 de Junho de 2011 às 00:30

Nunca me pareceu, no entanto, que as campanhas, com os excessos que naturalmente comportam, fossem o espaço mais adequado para grandes análises de fundo sobre a indigência da pátria e o ruinoso destino que inevitavelmente nos espera.

Só que estas eleições, que alguns, com razão, consideram históricas, partiam de um princípio diferente: em vez dos programas partidários e das promessas avulsas a que ninguém, tendo em conta o nosso historial democrático, dá particular importância, existe, sim, um acordo assinado pelo Estado português que é, na prática, um programa de Governo a que nenhum partido pode fugir.

A não ser, claro, os patriotas do Bloco de Esquerda e do Partido Comunista que, auto-excluindo-se de qualquer solução governativa, andam por aí a fingir que discutem o acordo, à pala da Grécia e da necessidade de renegociar a dívida. Esquecem-se, obviamente, de dizer que essa solução milagrosa que tanto apregoam depende não de nós mas dos credores e que, neste momento, Portugal não tem quaisquer condições para impor essa abençoada renegociação.

O que não quer dizer que as previsões, partilhadas pelo PCP e pelo BE, não tenham razão de ser. A impossibilidade de um país em recessão pagar taxas de juro na ordem dos cinco por cento é uma evidência que salta à vista de qualquer cérebro minimamente articulado.

Por estas e por outras (que são bastante explícitas no memorando de entendimento), os partidos que assinaram o acordo acharam por bem disfarçar o essencial, evitando pronunciar-se sobre os compromissos que assumiram. Não por acaso, o engº Sócrates, num rasgo de originalidade, resolveu apresentar o acordo com as medidas que não vinham no acordo, e o PSD, pela voz do dr. Catroga, veio imediatamente explicar que esse fabuloso acordo, anunciado pelo primeiro-ministro, se devia essencialmente às propostas (?) apresentadas pelos sociais--democratas.

Ficou, assim, a ideia de que o memorando assinado com o FMI e a União Europeia não era mais do que um novo PEC IV, na versão do PS, ou um PEC IV melhorado, na versão do PSD. Ora a verdade é que nos comprometemos com um programa de austeridade muito mais duro, que ninguém se dá ao trabalho de explicar como é que o vai aplicar. O Governo que sair desta campanha, assente nesta enorme ilusão, não vai ter a tarefa facilitada.

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