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Correio da Manhã

Colunistas
7 de Setembro de 2006 às 17:00
Há muitas e reputadas personalidades que consideram que José Sócrates fez uma OPA sobre o PSD, ocupando o seu espaço político e ideológico. Infelizmente, há muitos dirigentes do PSD que, também, assim raciocinam, chegando a evidenciar publicamente este ponto de vista.
Quem assim pensa está errado. Quem assim pensa no seio do PSD, trilha um caminho perigoso. Errado por algumas das razões que à frente enuncio; perigoso porque conduz à omissão, ao desânimo e à falta de convicção no combate político de oposição.
No ciclo político que decorreu entre Abril de 74 e a Revisão Constitucional de 82, a fronteira política entre os dois maiores partidos do espectro partidário era nítida: o PSD lutava pela democracia civilista, que passava pela extinção imediata do Conselho da Revolução, enquanto o PS ia coabitando com alguma simpatia com a existência de órgãos de soberania de cariz e origem revolucionária. O PSD, além disso, batia-se pela construção de um País à imagem das desenvolvidas sociais-democracias europeias, enquanto o PS, ainda, defendia uma Constituição de pendor leninista.
Entre 82 e o início da década de 90, a divisão era também clara: de um lado, o PSD a combater pela liberalização da organização económica do Estado, pela normalização do Estado de Direito no Alentejo, afectado pela reforma agrária, pela privatização dos órgãos de Comunicação Social, ou seja, pela erradicação da herança do 11 de Março. Do outro lado da barricada, o PS ia assobiando para o ar, adiando por uma década a modernização e relançamento da economia.
Desde então, nomeadamente após a queda do Muro de Berlim, muitos passaram a defender a tese de que só haveria uma forma de governar: “ao centro”, completamente subordinado ao paradigma do liberalismo económico e da economia de mercado, se possível por tecnocratas assépticos, desprovidos de emoções, de convicções e de alma.
O resultado está à vista. Em Portugal e na Europa. Crise prolongada, crescimento tímido, desemprego, fracturas sociais, hesitações institucionais, navegação à vista – sempre condicionados por dogmas, sejam eles o antigo ou o novo Pacto de Estabilidade. Para esta nova classe de dirigentes, pouco importa o país real, o que é mesmo importante é que o défice orçamental e a dívida pública estejam de acordo com as perspectivas desenhadas pelos burocratas de Bruxelas.
Neste contexto, o PSD deve fazer a diferença. Na Segurança Social, como já o fez, na Educação, na Saúde, na Administração Pública, na Justiça, na defesa de uma nova estratégia para libertar a economia do excessivo peso do Estado.
É também nesta nova atitude que é indispensável ganhar credibilidade, louvando o que de positivo o Governo vai fazendo. Entre essas iniciativas não posso deixar de louvar a acção do ministro da Saúde, pela criação das Unidades de Saúde Familiares, em contraponto com o ‘feroz’ centralismo prevalecente no Ministério da Educação. Esta medida do Ministério da Saúde é das poucas que não me repugnaria introduzir num Programa de Governo do PSD.
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