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Octávio Ribeiro

Cega, negra e cigano

O pior cego é o que não quer ler.

Octávio Ribeiro(octavioribeiro@cmjornal.pt) 28 de Novembro de 2015 às 00:30
O pior cego é o que não quer ler. Vai uma enorme polémica e uma ainda maior onda de indignação nas redes sociais por o CM ter dito que uma cega é cega e que um cigano é cigano.

Sofia Antunes, que acima vemos, na sua imensa dignidade, a assinar a tomada de posse, é cega de nascença. Um exemplo de tenacidade inteligente que Costa, e muito bem, levou para o Governo. De si mesma sempre disse Sofia ser cega. O que haveria de dizer? Enfrentou a sua condição e traçou um trajeto académico e social exemplar.

Carlos Miguel é um de muitos exemplos de perfeita integração da etnia cigana. Sempre assumiu ser cigano, tem orgulho nas suas raízes. Resolveu o CM eleger estes dois casos inéditos na formação de um Governo em Portugal como principal foco do seu trabalho no dia da tomada de posse. O CM disse que uma cega é cega e que um cigano é cigano.

Sem curar de ler o enquadramento da notícia, positivo e exemplar, logo uma horda virtual partiu à desfilada para montar um auto de fé. De uma cega não se pode dizer que é cega, nem de um cigano ser cigano. Mesmo que ambas as pessoas encontrem nessas suas condições um acrescido orgulho pelos seus trajetos.

É estranha esta multidão virtual que, apesar da individualidade a que apela o ato da escrita, alinha na manada do elogio ou da crítica e assim assusta ou ufana os seus alvos.

Nós, no CM, não nos deixamos toldar pelos elogios, nem tolher pelas críticas. Continuaremos a dizer do pão que é pão, e do queijo, queijo.

Sofia Antunes é cega, e conseguiu uma carreira que a torna exemplar. Carlos Miguel é cigano, estudou, integrou-se, sempre se fez respeitar pela simpatia e competência. A multidão sem neurónios que, nas redes sociais se comporta, qual matilha, ora latindo, ora rosnando, ora mordendo, é uma cáfila que lamentamos, mas não tememos.

Aos cegos e aos ciganos portugueses a nossa saudação fraterna neste tempo em que, pela primeira vez, se encontram representados no Governo. E se juntam à ministra Van Dunem, que é a primeira mulher negra num Governo português.

Ou não é negra? Ou não será mulher?
opinião Octávio Ribeiro
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