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Padre António Rego

Desarmar presépios

O coração humano não está preso de culturas ou ideologias.

Padre António Rego 5 de Janeiro de 2018 às 00:30
Guardo, desde há muito, o desencanto do tempo a seguir ao Natal. Parece que o desmontar do presépio, ainda que seja arrumar três figuras e dois anjinhos, corresponde ao acordar de um sonho que tinha o seu apogeu no nascimento de Cristo mas se embebia de toda a envolvência em pequenos gestos de dádiva em grandes e pequenos, próximos e distantes. O mistério que os cristãos celebram também passa por ritos que o mundo compreende e até, por vezes, sem qualquer expressão religiosa, cultiva como os cristãos, mesmo que falte alguma peça de interpretação. É uma convergência de sinais que vão ter ao mais fundo de nós próprios. O coração humano não está preso de culturas ou ideologias.

Cumprido o tempo, continua a ressoar dentro de nós a utopia do abraço entre todos. E parece que o ontem não está distante do hoje e a esperança nos aproxima serenamente do amanhã. Como o sonho da realidade.
Não se trata de arrebatamento poético mas do grande colóquio que cada um trava dentro de si e cuja ausência cria o vazio. O Natal foi tempo de respirarmos serenamente esse clima numa dimensão que apenas Jesus Cristo nos podia dar, e de pensarmos que é indigno da nossa condição humana apagar esse luzeiro que nos ilumina e aquece os nossos invernos.

Voltamos à urgência de a razão e a emoção se darem as mãos para nos conduzirem ao lugar sublime da nossa dignidade. Ninguém é chamado a uma altura mediana. Os tempos fortes surgem como focos essenciais que iluminam o nosso caminho e acalentam o nosso ânimo. Precisamos fixar o impulso dos tempos de festa para percorrermos os atalhos de aridez, sem beleza nem significado, que tantas vezes se cruzam nas nossas vidas. A memória também transporta montanhas.
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