Barra Cofina

Correio da Manhã

Colunistas
6
Piloto morre em corrida de motos no Estoril

Padre António Rego

Descartar os mortos

É a memória dum povo, no voltar à terra para a tornar ainda mais verde.

Padre António Rego 30 de Outubro de 2016 às 01:45
Perdi o medo de entrar num cemitério. Acho que além de ser um campo santo, é um terreno de paz, de encontro e de memória.

Gosto de fazer silêncio junto da campa de meus pais, ver nomes e imagens de parentes, conhecidos e amigos sem perguntar pelo onde será o lugar exato de repouso do meu corpo. Mesmo com a fé na ressurreição ficam perguntas sobre a vida e sobre a morte. E não são poucas.

Um dos mais belos cemitérios que conheço é o das Sete Cidades, nos Açores. Recortado num extenso campo verde, avista-se do alto das cumeeiras como se fosse parte da paisagem exuberante que tantos turistas visitam.

O Cemitério não tem monumentos especiais, nem lá está sepultada nenhuma das princesas cujas lágrimas derramadas encheram, segundo a lenda, a lagoa azul ou verde. Mas é a memória dum povo, no seu voltar à terra para a tornar ainda mais verde. Que se deixa olhar, venerar e rezar.

Poderiam aí estar também aconchegadas as cinzas. Mas se forem espalhadas nas lagoas ou lançadas ao vento, quem saberá onde prestar homenagem e como aconchegar as flores? O culto dos mortos é dos mais antigos que a humanidade conhece. Novembro está aí. Não para lançar as cinzas no abismo sem retorno do esquecimento.
cemitério morte cinzas cremação religião
Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)