Que o ministro Centeno tenha mentido não preocupa muitos portugueses. Aceitam que faz parte da política; é uma atitude enraizada na cultura católica; os pecados absolvem-se pela confissão. Na cultura cristã protestante, a mentira não se remedeia assim. Também nos países protestantes se assume que a mentira integra a política, mas, em geral, os políticos apanhados a mentir demitem-se.
Neste quadro, com Costa comprometido na mesma putativa mentira, e com um chefe de Estado extravasando o papel que a Constituição lhe atribui, imiscuindo-se numa presença mediática cansativa e sem razoabilidade em defesa casuística do governo, pouco altera o curso da política o que Centeno venha a assumir.
Na realidade, o caso está resolvido à partida: provou-se que Domingues impôs condições para ir para a CGD; foram aceites por um acto político: o decreto-lei que fez de condições de Domingues uma lei do nosso país, que criou condições particulares para pessoas particulares. Este é o pecado original deste caso, mas a vertigem político-mediática deixa-se enredar no pântano do diz-que-disse da "pós-verdade" e não no acto político, no facto, no que mais conta.
Como o caso é grave, até os media que apoiam abertamente o governo, como ‘JN’, ‘DN’ e ‘Público’, tiveram de abrandar a sua habitual propaganda mitigada. O ‘Público’, que colocava na primeira página duas a três notícias fofinhas para o governo, moderou-se de repente. O ‘DN’ e o ‘JN’ já o haviam feito antes. Como as orientações editoriais são as mesmas, percebe-se que soaram sinais de alarme, quem sabe se nas respectivas administrações: o povo não gosta e, portanto, não compra media que não se assumem como quarto poder informal e optam por ser o eco do poder executivo. As vendas desses jornais vão caindo e as administrações lá terão dito aos seus "generais prussianos" que se calhar, com tristeza, teriam de aligeirar a propaganda, a ver se não caem ainda mais nas vendas.
Mesmo assim, defendem nos comentários a ocultação da informação sobre a CGD, uma atitude aviltante para quem tem por obrigação informar e esclarecer o público. Aconteceu num artigo no ‘DN’ do agora director na RTP, André Macedo, mas também no comentário de Manuela Ferreira Leite na TVI 24. Ela, que ali não é política, mas comentadora — esclarecedora do público —, disse "quero lá saber que emails foram trocados entre Centeno e Domingues". Pôs-se contra o seu público, contra os cidadãos. O público, abandonado por quem o deve informar, pode ricochetear e pensar "quero lá saber de Ferreira Leite, da TVI, dos media e comentadores que fazem o papel do poder e não o seu".
TVI perverte o ‘merchandising social’
A TVI alega que se inspirou "num caso real" e, com arrogância, que se trata de um "assunto interno da produção".
O problema é que não é só um assunto interno. As novelas procuram representar problemas sociais com realismo, numa prática conhecida como ‘merchandising social’. Baseando-se (?) num único caso, a TVI trai o contrato informal com os espectadores de usar a telenovela para representar fielmente um problema real da sociedade, o Crohn, que não é "um caso", mas cerca de 20 mil casos.
Só mais um esforço, vá: demitam-se todos
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