Começou auspiciosa a nomeação do novo presidente da agência de notícias LUSA — com uma notícia falsa. Sem citar as fontes, que pareciam governamentais, o governamental ‘Público’ dava como certa a escolha dum deputado do PS. A "fake news" servia para o governo se desmentir quando, no dia seguinte, sossegava a opinião pública ao nomear, sem escancarar carga partidária, Nicolau Santos, director-adjunto do ‘Expresso’ e animador do ‘Expresso da Meia-Noite’, na SICN.
Com 35 anos de jornalismo e muitos de direcção, Santos sabe da poda. É cordato, um democrata e exibe gosto pela cultura. Há anos que reproduz um poema na sua página de opinião no ‘Expresso’. Não gosta, porém, apenas de poesia, aprecia também o aroma do poder. É homem para se ambientar aos que forem, em cada momento, os Donos Disto Tudo. É dos jornalistas que mais bem demonstraram nestas décadas a grandeza de estar próximo dos poderosos. A sua extensa obra jornalística revela esse olhar a sociedade de cima para baixo. Para a apimentar com preocupações sociais, Santos era e é um "homem de esquerda", nacional virtude santa que retoricamente desinfecta da proximidade com os poderosos e embala os leitores.
Aprendido o ofício na agência ANOP, Nicolau lançou-se no jornalismo económico quando o vento começava a soprar para o nosso capitalismo descapitalizado pelo PREC. Acalentado por Cavaco e Soares, arrebitava o capitalismo amante do Estado que o DDT mais que tudo, esse, o Espírito Santo, benzia.
Os salões do management abriam-se a Nicolau, mas ele sonhava mais. Na pátria dos DDT, economia e política confundem-se; também no jornalismo. Nicolau dirigiu o ‘Público’, mas era este então demasiado independente. Assentou em definitivo, com a naturalidade das coisas simples, no ‘Expresso’, que é a aorta do Bloco Central, por onde circulam os namoros, arranjos e arrufos do Sistema. Faltava a consagração do regime, e ela veio em 1996, quando foi erguido a comendador — e logo com a comenda do Infante, o visionário descobridor. Em suma, Nicolau tem pertencido às Instituições. Já merecia descansar das glórias.
Ia sair do ‘Expresso’, depois de semana a semana incensar Centeno — e eis que o governo de Centeno o nomeia presidente da única agência de notícias, um monopólio nacional. Nomeado no dia em que sai do ‘Expresso’: é o coroar de uma carreira gloriosa no jornalismo sistémico, convictamente de "esquerda", laçarote lançado pelos sábios DDT à massa ignara que não entende poesia. Aceitou o sacrifício. Fica bem na LUSA, válvula pulmonar do coração noticioso nacional. Com ele, o Sistema e as Instituições fluem, sem síncopes e arritmias. Ámen.
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A ver vamos: Audiências em 2017 - Panegírico dos grandes líderes da RTP
O ano termina com uma ligeira perda de audiência dos quatro canais generalistas, RTP 1 e 2, SIC e TVI. Os canais privados estancaram a queda; a diminuição deve-se apenas à RTP 1 e 2. Os canais do Estado confirmaram a tendência de perda dos últimos anos. A RTP 2 perdeu num ano um quarto dos seus espectadores. Embora seja o segundo mais antigo canal nacional, sustentado pelos impostos dos cidadãos, estes viram-lhe a cara e é hoje, incrivelmente, em audiência, o 12º canal no país.
No cabo, estão à sua frente canais de informação, de filmes e séries e até dois canais infantis, quando a própria RTP 2 dedica muitas horas a esse público. É este o remate de quatro anos dos mandatos do Conselho Geral Independente (CGI) e da actual Administração da empresa, anos que reiteram em glória as promessas estratégicas e os amanhãs cantados pelos administradores à imprensa e ao parlamento. O meu conselho ao CGI: renovem-lhes já o mandato, sem abrir concurso.
Já agora: Panegírico dos partidos
A lei do seu financiamento que os partidos aprovaram, quase unânimes, para se alambazarem, não é surpresa. É confirmação. Foi bom: mostraram a sua natureza. Normalmente, embrulham-na em retórica. Os partidos querem, antes de tudo, empanturrar-se. As suas desculpas face ao clamor público gerado merecem entrar nos manuais de ciência política.
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