Estão casados há mais de 60 anos. Ele faz 92 amanhã, ela 82 em agosto que vem. Recebem visitas esporádicas de filhos e netos, uns à porta, outros nas escadas, distantes. Não há beijos nem abraços, não vá o diabo tecê-las. Só se atrevem a ir à rua comprar o que faz mesmo falta. O resto do tempo é passado entre o quarto, a cozinha, o sofá da sala, em frente à televisão, à espera da chamada para a vacina. Acreditaram que seriam dos primeiros. No tempo deles, a palavra tinha valor. Mas o telefone não há meio de tocar. Nem trim-trim, nem SMS. Faz-lhes confusão ver jovens saudáveis, vigorosos, de braço ao léu, a receber a dose. Não compreendem como já chamaram mortos sem cuidar dos vivos. Estranho plano de vacinação este. Estranhas prioridades.
Desde o início da pandemia que os idosos pouco contam. Foram abandonados à sorte. Morreram aos milhares, longe de todos, enterrados à pressa, sem velórios nem último adeus de familiares, vizinhos, amigos. Acabaram protagonistas de um filme dirigido por quem se esqueceu que um dia será como eles, velho. Já se fizeram uns minutos de silêncio, mas ainda não se ouviu a palavra desculpa.
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