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Correio da Manhã

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Paulo Sargento

O estaladão e a educação: rima, mas não é verdade!

Palmada e pedagogia não jogam no mesmo terreno!

Paulo Sargento 1 de Abril de 2019 às 15:56

Rosa Grilo assumiu publicamente ter esbofeteado o seu filho de 13 anos, por ocasião de uma visita, por ele realizada, ao estabelecimento prisional onde a referida cidadã se encontra detida, em prisão preventiva. À agressão assumida deu um sentido educativo! Aliás, este é um sentido comumente conhecido por "palmada pedagógica".

Devo dizer que discordo veementemente com o conceito. Palmada e pedagogia não jogam no mesmo terreno!

Como sabemos, vários países introduziram na legislação a proibição, ou melhor, a criminalização do castigo físico! Claro que tal adoção legislativa provocou diversas reações.

Uns acham um disparate, até porque consideram que uma palmada no sítio certo e na hora certa resolve quase tudo e deve permanecer o paradigma da educação. Logo, "o legislador é estúpido e parece que não tem filhos", diriam. E adiantam ainda: "se hoje sou o cidadão que sou devo-o aos meus pais porque não hesitaram em dar-me uma palmada quando foi preciso". Mas, os defensores deste argumentário esquecem duas coisas, pelo menos:

1- Da dor e afetividade negativa sentida na altura face aos pais;

2- E que o legislador não pode prever a diferença entre a palmada pedagógica e o castigo físico propriamente dito.

Assim, para estes senhores devo dizer: ainda bem que conseguiram fazer as pazes com os vossos pais. E adianto, comprem um dinamómetro para medir a força física da palmada e forneçam esses dados para o legislador operacionalizar na lei o ponto a partir do qual a palmada deixa de ser pedagógica e passa a ser castigo físico.

Depois temos o argumentário jocoso e ressabiado, muitas vezes ilustrado em cartoons em que o médico obstetra hesita em dar a tradicional palmada nas nádegas de um recém-nascido com receio de ser processado. Ora, este argumentário, falacioso em si mesmo, tem um problema central: o de coisificar a criança ou de lhe retirar todo o respeito que ela merece enquanto ser e cidadão. Assim os partidários desta linha argumentativa entretêm-se a imaginar situações que expõem ao ridículo a Lei, tentando, pela negativa, contrariar um silogismo que não é contrariável: bater é sempre bater!

Depois aparecem os conciliadores ou consertadores. A lógica aqui é: "nem tanto ao mar, nem tanto à terra". O próprio Papa Francisco, de resto personagem admirável e corajosa, representa um pouco essa tendência quando afirma que "uma pequena palmada, sem violência, serve como instrumento educativo, desde que não seja dada na face porque isso afeta a dignidade". Embora nutra simpatia por sua Santidade, espanta-me como pode pensar que no corpo humano só a face pode representar dignidade.

Finalmente, aparecem os naturalistas com o argumentário mais bacoco. E reclamam: "então meu amigo, não seja fundamentalista. Olhe, nunca viu uma leoa ou uma cadela dar um chega para lá nas suas crias? Bom, as leas, as cadelas e outros animais não humanos, não andam de automóvel; não vestem roupa; não vêm televisão; não vão à escola; não possui o nível de linguagem que os humanos possuem; não escrevem sobre direitos dos leõezinhos e dos cachorrinhos. Qual é, então, o argumento para a comparação?

Bom, é evidente que sei que a palmada acontece frequentemente. Mas não é um ato educativo, no meu ponto de vista. O facto de nos desorientarmos e agirmos de formas menos elaboradas, porque simplesmente, em determinada altura, faliram todas as outras possibilidades de interação, não nos dá o direito de designarmos esse comportamento de pedagógico. Pelo contrário, deve convocar-nos para um aprofundamento das nossas competências enquanto pais e educadores, reforçando a ideia do que o que as crianças observam no mundo depende, em larga medida, daquilo que os adultos são capazes de mostrar.

A disciplina não é aquilo que fazemos a uma criança, mas, sim, aquilo que fazemos por uma criança. Senão questionemo-nos, como muitos já o fizeram: se bater num adulto é violência, se bater num animal é crueldade, por que motivo bater numa criança é educação?

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