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Correio da Manhã

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Paulo Sargento

O Sporting Clube de Portugal transformou-se num “analisador social”?

Clube tem sido o centro das atenções mediáticas nos últimos dois meses.

Paulo Sargento 15 de Junho de 2018 às 11:19

O Sporting Clube de Portugal, instituição desportiva centenária, de grande prestigio, respeitabilidade e de (re)conhecidos pergaminhos, tem sido o centro das atenções mediáticas nos últimos dois meses. Os ângulos de análise têm sido múltiplos e enquadram-se em diferentes conceitos sociais. Tentaremos, em 7 alíneas, expô-los sucintamente:

1 – O eterno (e perigoso) retorno das lideranças autocráticas, do seguidismo avassalador e do efeito de manada;

O Presidente Bruno de Carvalho reencarna, para muitos, a figura do pequeno ditador, onde o espírito beligerante e a autocracia insensata se combinam de forma tão ímpar que nos permite relembrar os grandes estudos sobre o comportamento dos povos na sua relação com líderes estranhos, relembrando mitos sebastiânicos (Bruno, o Salvador, após o desaire da Direção de Godinho Lopes), que sustentam um seguidismo avassalador e cego (mais de 90% dos votos confirmam uma liderança, visivelmente, autocrática e querelante) que, frequentemente, responde como uma manada (violência contra jornalistas, violência contra jogadores).

2- O mobbing ou assédio moral laboral exposto ao público em tempo real;

O Presidente Bruno de Carvalho utiliza, de forma frequente, as redes sociais para criticar, publicamente, a prestação profissional dos seus colaboradores (leia-se jogadores), chegando, mesmo, a produzir ralhetes impróprios e a tecer algumas ameaças, diga-se, muito pouco veladas.

3 – O Terrorismo "amador" (e pueril) e o Pós Stresse Traumático "profissional";

Um grupo de cerca de 50 simpatizantes/sócios/membros da Juve Leo (dir-se-ia, meia hecatombe, para sermos precisos na etimologia, dado que uma hecatombe necessitaria de 100 intervenientes), de forma amadora, e até algo pueril, mas muitíssimo violenta, agrediram e aterrorizaram o plantel de futebol profissional e a equipa técnica, de uma forma brutal (ainda que para alguns só se tratasse de um simples par de bofetadas), provocando sintomatologia consistente com perturbação Pós Stresse Traumático, no quadro laboral, principal fator dos pedidos de rescisão com justa causa por parte de mais de metade da equipa principal.

4 – As guerras intestinas e os golpes palacianos;

As guerras são todas más. Mas as guerras fraticídas são ainda piores. A conflitualidade entre associados e os golpes palacianos são o maior perigo do associativismo e, na maior parte das vezes, resultam de uma corrida ao "pote" (mais grotesco e prosaico) mais do que um ataque ao Poder (mais elevado, mas mais cínico). No caso em apreço, as evidências dos relatórios e contas falam por si.

5 – O Direito Administrativo e as (in)convenientes interpretações;

Mesmo as ciências nomotéticas e normativas, como é o caso do Direito, podem ser povoadas de diferentes interpretações, de acordo com diferentes conjunturas e/ou supraestruturas. É muito interessante verificar que mesmo os académicos e os cientistas de maior categoria e gabarito têm dificuldade em raciocinar de forma objetiva quando argumentam sobre as suas paixões. O "embrulho" da discussão jurídica sobre os processos administrativos relativos às Assembleias Gerais constitui um autêntico brinde ao fanatismo e explica, muitíssimo bem, por que razão Cognac e Trabalho têm de estar separados… 

6 – panem et circenses

Quando existe grave conflito entre dois interesses, sobre uma mesma regulação e/ou condição, frequentemente, há necessidade de intervenção de terceiros. No caso em apreço, o SCP já mostrou a dificuldade (ou, mesmo, impossibilidade) de encontrar, por si só e intramuros, uma solução para resolver a grave crise em que se encontra. Questionemo-nos: não terá chegado a altura de existir uma intervenção externa ao clube, mormente até porque se antecipam reuniões e encontros onde a segurança das pessoas e bens pode estar em causa? Todavia, como escreveu Juvenal: Panem et Circense, isto é, o povo distrai-se com pão e circo. O Poder (leia-se, Estado), frequentemente (leia-se, em alturas convenientes), prefere que o povo esteja feliz,  iludindo-o com o pão e com o circo… A este propósito: quantas alterações de natureza legislativa, com forte impacto na vida dos cidadãos, foram produzidas durante esta "crise desportiva"? 

7 – Outros "Galambas" e outras "Câncios": a saga continua…

Finalmente, uma palavra para, com toda a justiça, reconhecermos que o "estilo" Bruno de Carvalho não começou há dois meses. Há pouco mais de dois meses, a liderança de Bruno Carvalho (e, também, o seu "estilo") foi sufragada de forma esmagadora pelos sócios. É por isso que, por analogia a um processo que envolve um ex-primeiro ministro, me parece que a saga de "Galambas" e "Câncios" continua. Estes sim! São os grandes responsáveis por grande parte do que acima descrevi! Será que só agora é que o "estilo" Bruno de Carvalho se tornou danoso para o SCP?

Espero que o bom senso impere e que, muito brevemente, o Sporting Clube de Portugal veja repostos os seus mais que meritórios Respeito, Dignidade e normal funcionamento!

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