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Pedro Santana Lopes

Uma chanceler encantador

Figuras que marcam: Gerhard Schroeder

Pedro Santana Lopes 31 de Maio de 2015 às 00:30

Recebi Gerhard Schroeder no Palácio Nacional da Vila de Sintra, que está, normalmente, afeto aos almoços oficiais que são oferecidos por quem exerce as funções de primeiro-ministro. A reunião estava marcada para logo de manhã, mas o avião de Schroeder atrasou-se ao aterrar devido ao mau tempo em Lisboa. Foi chamada simpatia recíproca à primeira vista. Não vou estar a insistir que domino razoavelmente a língua alemã, mas esse facto facilitou, e muito, o bom ambiente em que decorreram os trabalhos e que é extremamente visível nas fotografias.

Na reunião de trabalho falámos especialmente da necessidade da revisão do Pacto de Estabilidade e Crescimento (PEC). A Alemanha e a França tinham violado o limite dos três por cento e como há sempre uma especial consideração pelos mais poderosos, não lhes aconteceu o que aconteceu a Portugal, que tinha desde 2001 de enfrentar um procedimento por défice excessivo. No caso da Alemanha e da França, a decisão foi a de rever o Pacto, dando mais importância ao crescimento e não só à estabilidade. Esse foi, pois, um tema dominante. Estávamos em outubro de 2004.


Após a reunião de trabalho, primeiro a sós, os dois, e depois com os responsáveis que nos acompanhavam, passo a descrever a conversa que houve ao almoço numa das salas daquele palácio. Gerhard Schroeder era casado pela quarta vez e sabia que a minha vida pessoal também não tinha sido simples até aí. Perguntou-me quantos filhos tinha, falou-me da sua família e disse-me, educadamente, que estava cheio de vontade de chegar a casa, onde, por razões de trabalho e de constantes deslocações, tinha estado pouco nos dias anteriores. Disse-me que estava cheio de saudades da sua filha pequenina, uma criança adotada por ele e pela mulher, nascida em São Petersburgo.

É bom lembrar que São Petersburgo é a terra onde Putin também teve especiais responsabilidades na autarquia. Obviamente por coincidência e razões diferentes, mas ambos têm ali laços com São Petersburgo. Lembre-se ainda que Schroeder, desde que saiu do Governo, tem uma ligação especial à Gazprom, através da presidência da assembleia geral do consórcio que gere o gasoduto Nord Stream, detido em 51 por cento por aquela empresa de energia russa.

Falámos muito dos filhos e da importância da exigência ser maior na dedicação à tarefa de se manter entre eles um forte espírito de família. Da parte da tarde tínhamos uma sessão na Câmara de Comércio e Indústria Luso-Alemã para assinalar os 50 anos da instituição na FIL da Junqueira. Naturalmente, esperei-o à porta e quando ele chegou, abriu o sorriso e os braços de modo franco e trocámos um abraço, como se de uma amizade antiga se tratasse já.

Continuámos a conversar sempre que pudemos e não se quis ir embora sem me convidar para um jantar a dois em Berlim num restaurante de que ele gostava muito. Ficou marcado, penso que para o dia 15 de fevereiro de 2005. Foi um gesto muito simpático, só que mês e meio mais tarde veio a dissolução decidida pelo Presidente Sampaio. Houve eleições a 20 de fevereiro e como se calcula e compreende, com pena minha, tive que pedir escusa ao chanceler.



Pelo que conhecia dele, das imagens televisivas, confesso que tinha uma ideia diferente, mas depois daquele encontro pessoal e dos encontros no Conselho Europeu, pude perceber que se tratava de uma pessoa com trato encantador. Houve quem me dissesse que não era sempre assim, e que se tratou de uma questão de simpatia entre os dois chefes de Governo. Não sei. Desde esse jantar frustrado, não mais nos encontrámos.
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