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Pedro Santana Lopes

Um político reservado e surpreendente

Recebi-o em Lisboa ainda ele não era presidente da Generalitat.

Pedro Santana Lopes 8 de Novembro de 2015 às 00:30
Veio com a sua mulher e uma comitiva de colaboradores na altura das Festas de Lisboa. Tínhamos, enquanto município, várias formas de colaboração quer com Barcelona, quer com outros municípios da Catalunha.
Quando decidi fechar os bairros históricos da capital ao trânsito, em 2002/03, visitei Barcelona, que era já um exemplo bem conseguido dessa opção. O então presidente da Câmara de Barcelona, Joan Clos, deu-me um conselho que não esqueci: "Quando fechares as ruas ao trânsito, vais ter muita oposição dos comerciantes, mas vais ver que com o tempo eles vão ser grandes apoiantes dessa medida." Disse mesmo que os comerciantes poderiam vir a ser ainda mais apoiantes do que os próprios residentes.



Artur Mas visitou Lisboa, julgo que, de algum modo, no âmbito do processo de preparação para esses voos mais altos. Lembro-me de que fomos um dia, à hora de jantar, a umas festas populares na Praça da Figueira, bem no centro de Lisboa. Pareceu-me uma pessoa política experiente, arguto, muito reservado. Falava num tom sempre muito igual e confesso que tive algumas dúvidas de que pudesse ganhar eleições nos tempos seguintes, após uma liderança tão forte e tão marcante como a de Pujol, que governou a Catalunha durante mais de duas décadas.

Do contacto que mantive com Artur Mas, nada ouvi nem percebi que desse para adivinhar a posição firme, categórica, radical, extremada – a qualificação depende da perspetiva de cada um – que anos depois passou a assumir em matéria de independência da Catalunha. Com toda a franqueza, tenho tido algumas dificuldades em perceber até que ponto há convicção por parte de Artur Mas sobre essa matéria e em que medida se entrelaça o interesse e a sobrevivência política e pessoal.

Artur Mas tem alternado resultados que lhe permitiram governar com coligação ou sem ela, com maioria absoluta ou maioria relativa, mas nunca foi, julgo, um líder entusiasmante. Em minha opinião, não é de facto um líder carismático. Mas Espanha foi governada durante anos por outra pessoa que também tinha muito pouco carisma ou nenhum, José Maria Aznar. Depois, no exercício do poder, construiu o carisma da competência e da coragem, atributos que lhe eram comumente conhecidos. Mas também não era um homem entusiasmante na oratória, no contacto e no relacionamento com as pessoas. Nenhum dos dois mobilizava massas antes de chegar ao poder. Artur Mas, nestes anos, tem liderado movimentos de massas, mas julgo que mais pelas posições que tem assumido, cada vez mais pró-independência, do que propriamente pelo seu estilo de liderança. Lembrando aquela frase de José Ortega y Gasset, "cada pessoa é ela própria e as suas circunstâncias", e Artur Mas tem sabido lidar muito bem com as circunstâncias, procurado conduzi-las em proveito da sua posição como líder político. No entanto, atravessa cada vez mais dificuldades, enfrentando até neste momento investigações de cariz financeiro, que envolvem também um colaborador seu.

Mas o que mais importa para os catalães e para toda a Espanha é o processo para onde Artur Mas tem conduzido a Catalunha, em coligação com forças políticas muito distantes da sua. É difícil dizer se o caminho será bom ou não. Que é muito complexo, é. Que é perigoso mesmo para a Europa, é. O tempo dirá quais serão as consequências, incluindo para o próprio Artur Mas, que desta vez jogou tudo.
Pedro Santana Lopes figuras que marcam
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