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Rui Moreira

Governabilidade e desgoverno

Pergunto-me o que sucederia se Portugal tivesse uma crise de governabilidade tão grave como Espanha teve.

Rui Moreira 30 de Outubro de 2016 às 01:45
Em novembro, os reis de Espanha visitam Portugal, onde serão muito bem recebidos. Hoje, a relação ibérica é fundamental de ambos os lados da fronteira. As incompreensões históricas foram resolvidas e há uma assinalável e desejável interdependência das duas economias, pese embora o desequilíbrio que resulta, em larga medida, das diferentes dimensões dos dois estados.

Apesar de todos os problemas de governabilidade, com um Governo de gestão corrente, com o problema da independência da Catalunha no horizonte, com o eterno drama do desemprego e das convulsões sociais, a verdade é que Espanha tem uma taxa de crescimento três vezes superior à nossa. E isso quer dizer que o fosso se acentua. Seria útil compreender as razões pelas quais divergimos de forma drástica do nosso maior cliente, que é, também, o nosso maior fornecedor.

Haverá quem explique que há uma questão de dimensão dos mercados internos de cada um dos países, com consequências na estrutura empresarial. Creio que essa justificação maquilha a dimensão e a origem do problema, que resulta da estrutura diversa das administrações dos dois países. E pergunto-me, a propósito, o que sucederia em Portugal caso tivéssemos - e um dia poderemos ter - uma crise de governabilidade tão grave como Espanha teve, e que não está plenamente resolvida.

O modelo descentralizado - ainda que caótico - da Espanha democrática, com autonomias e independentismos, com negociações e contrapartidas, resulta num apreciável equilíbrio de forças antagónicas que propiciam opções estratégicas que, no final, adquirem uma dinâmica globalmente positiva.

Ao invés, Portugal insiste num sistema singularmente monolítico, concentrado e obcecadamente centralista, que faz com que as políticas públicas estejam capturadas por interesses que não valorizam os vetores mais dinâmicos da economia. Basta ver como essas políticas públicas ignoram as necessidades da indústria exportadora, aqui e ali bajulada por sucessivos governantes que, na hora de decidir, ignoram as suas aspirações e desígnios.

Talvez seja por isso que a nossa governabilidade resulta para o cidadão pior, bem pior, do que a ingovernabilidade espanhola.

Fórum do Futuro
Depois de amanhã inicia-se no Porto o Fórum do Futuro. Trata-se da terceira edição de uma das mais importante realizações internacionais regulares que existem em Portugal no domínio do pensamento. Numa época em que a voracidade da atualidade e o "main stream" tudo canibalizam, é bom que uma cidade co-mo o Porto se reúna em torno do pensamento e reflita sobre o seu presente e o seu futuro.

O programa é vasto e rico e estende-se de 1 a 6 de novembro, numa iniciativa programado pela Câmara do Porto mas que agrega também instituições como a Casa da Música, a Fundação Serralves e o Teatro Nacional de São João. Consulte a programação no site do Fórum do Futuro ou acompanhe em www.porto.pt. Todas as sessões são de entrada gratuita, mas sujeita à emissão de bilhete devido à lotação das salas.

Cinema regressa à baixa
Durante muitos anos, os portuenses lamentaram-se pelo desaparecimento do cinema da baixa. As razões desse fenómeno são várias e têm a ver sobretudo com as condições de exibição comercial que a sétima arte hoje encontra nos shoppings e com a desertificação da baixa.

O regresso do cinema à baixa, com um programa "triangular" e um cartão chamado "tripass", que ligará o Trindade, o Passos Manuel e o Rivoli, apoiado em coprodução pela Câmara do Porto mas que corresponde sobretudo às novas oportunidades comerciais que a dinâmica da cidade abriu, foi o grande motivo de reações no meu Facebook esta semana. É assim se prova que nem tudo o que existe hoje na baixa do Porto é turismo.
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