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Rui Pereira

Carta ao FBI

É verdade que o FBI vigiou durante vinte e quatro penosos anos Gabriel García Márquez?

Rui Pereira 12 de Setembro de 2015 às 00:30
Prezados investigadores criminais, sei que vos orgulhais da vossa história centenária. Assassinos como John Dillinger e Al Capone, mafiosos como John Gotti e terroristas como o ‘Unabomber’ sentiram já a vossa mão pesada, em benefício dos Estados Unidos da América e do Mundo em geral. Porém, há episódios algo mais obscuros na vossa existência longeva, como as tropelias de John Edgar Hoover contra Charles Chaplin, Luther King, John Kennedy ou John Lennon.

Aproveito para vos dizer, também, que fiquei perplexo com a história sórdida de Bill Clinton: como se explica que um presidente investigado por questões de financiamento político quase seja demitido por causa de uma ‘relação imprópria’ com uma estagiária? Por que razão reteve a polícia num hotel a jovem Monica Lewinsky até que ela confessasse a relação e exibisse um vestido maculado? Houve excesso de zelo ou obediência indevida a um procurador fanático?

Todavia, o que me leva a escrever esta missiva é um facto só agora conhecido: é verdade que vigiastes durante vinte e quatro penosos anos Gabriel García Márquez? Será que o confundistes com um perigoso terrorista, um espião soviético ou um traficante de cocaína (lá colombiano era ele)? Qual foi o produto do vosso labor insano? Confesso, com frontalidade amiga, que tal perseguição me choca pela boçalidade e temo que ela justifique um corte no vosso orçamento.

Se queríeis conhecer o pensamento e a atividade do perigoso ‘Gabo’, havia um caminho mais fácil: ler os seus romances, contos, poemas e memórias. Teríeis concluído que ele tinha uma imaginação prodigiosa, gostava da vida e dos seres humanos e era sensível à solidariedade (por isso, escreveu uma alegoria sobre a solidão). Com alguma sorte, talvez descobrísseis que não pactuava com os advérbios terminados em ‘mente’ e por que razão se zangou com Vargas Llosa.

Contudo, nada disto está previsto no Código Penal. Creio, por conseguinte, que perdestes o vosso tempo e delapidastes o dinheiro dos contribuintes norte-americanos. Paciência, direis vós. Não é bem assim: enquanto perseguíeis ‘Gabo’, vários delinquentes certificados dedicavam-se às suas atividades criminosas. E, para vossa suprema humilhação, talvez alguns deles tenham lido com proveito a ‘Crónica de uma morte anunciada’ ou ‘O amor em tempos de cólera’.
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