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Rui Pereira

Silêncio de Estado

Segredo de Estado à parte, é óbvio que as declarações de Rui Machete não foram felizes, o que é de estranhar.

Rui Pereira 30 de Outubro de 2014 às 00:30

O Ministro dos Negócios Estrangeiros comentou em público a situação de duas ou três pessoas de nacionalidade portuguesa, "sobretudo raparigas", que foram atraídas pela organização terrorista que dá pelo nome de "Estado Islâmico" e "agora estão a querer voltar". Tais declarações causaram viva polémica, discutindo-se se Rui Machete terá ou não violado o segredo de Estado. Ora, a resposta a esta pergunta é clara e obscura ao mesmo tempo: Rui Machete só terá violado o segredo de Estado se obteve tais informações através de elementos classificados.

Pelo contrário, o ministro não terá violado o segredo de Estado se obteve as informações por intermédio de familiares das raparigas, de jornalistas ou de diplomatas. E este cenário não é de todo inverosímil, uma vez que a existência de um número reduzido de portugueses (cerca de vinte?) que aderiram à mais perigosa organização terrorista à escala planetária é um segredo de polichinelo. Todavia, o que é irónico e paradoxal é que nós só conseguiríamos saber se Rui Machete violou o segredo de Estado mediante uma (nova?) violação do segredo de Estado.

Segredo de Estado à parte, é óbvio que as declarações de Rui Machete não foram felizes, o que é de estranhar num homem com experiência de serviço público e qualidades intelectuais de um académico. Verdadeira ou falsa, a informação que transmitiu é suscetível de pôr em perigo a integridade e, no limite, a vida das poucas (e facilmente identificáveis) portuguesas que embarcaram na aventura fundamentalista. O peso da qualidade de Ministro dos Negócios Estrangeiros só agrava o eventual perigo, que nós não poderemos quantificar mas não vale a pena correr.

Para dar um epílogo feliz a esta "pequena história", aquilo de que precisamos é que "as nossas raparigas" (e por que não os rapazes?) regressem a casa e abandonem de livre vontade a pérfida associação de malfeitores psicóticos que lhes acenou com uma escadaria para o céu, aproveitando-se das suas fragilidades de almas jovens esmagadas pelo admirável mundo novo da globalização. É verdade que eles incorrem em penas de prisão de 5 a 15 anos por terem aderido à organização. Porém, o Estado pode atenuar a sua responsabilidade ou isentá-los de punição.

Rui Machete Ministro dos Negócios Estrangeiros política
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